Jussara Lucena, escritora

Textos

A Princesa, os escravos e as camélias

O dia foi cheio. Será um domingo lembrado pela história do Brasil. Este texto eu não publicarei, o guardarei para reflexão futura. Para o público farei outro que ainda na madrugada entregarei para composição e impressão. Há muitos interesses em jogo, inclusive os meus e não poderei ser tão verdadeiro no editorial de amanhã.

Meu filho veio até mim e adormeceu. Olhando a serenidade do seu rosto e pensando no seu futuro passei a relembrar os acontecimentos deste dia 13 de maio de 1888.
Enquanto eu assistia, espremido entre a multidão, a assinatura da Lei 3353 e olhava firmemente para a senhora que empunhava a pena dourada que impregnaria de tinta aquele documento, eu me coloquei em seu lugar tentando adivinhar seus pensamentos, entender como ela encarava aquele momento. O atoselaria o seu futuro, o destino de sua família e de sua nação.

Mas, o que movia a herdeira do trono do Império a declarar extinta a escravidão no Brasil? Este debate já durava algum tempo, mesmo antes do Ministro da Agricultura Rodrigo Augusto da Silva apresentar o projeto de lei, naquela terça-feira, 08 de maio de 1888.

Fiquei pensando na carga que ela suportava, com a responsabilidade de assumir o lugar de seu pai em uma sociedade onde a mulher tem pouca voz. A mãe que busca a felicidade dos filhos e ainda tem o peso da vida de seus súditos nos ombros.Como aquela mulher, aparentemente frágil, conseguia suportar as pressões internas e externas que desafiavam sua nação. Chamada de beata ignorante por uns, reacionária por outros ela agora me parecia serena, demonstrando todo o seu desembaraço durante a solenidade.

Na sala cheia do Paço Imperial dirigi meus olhares aos Republicanos, tentando ler em suas expressões faciais o que pensavam. Pelos sorrisos disfarçados, talvez entendessem que a ideia da República seria fortalecida com gesto da Regente, pois os prejuízos aos poderosos seriam grandes. Talvez desconsiderassem que caso o sistema de governo mudasse eles teriam que administrar a questão dos escravos daí em diante.Quem sabe, imediatistas, não medissem as consequências para os pretos ou para os brancos. Já os Monarquistas pareciam apreensivos, porém acreditavam que aquele ato permitiria a sobrevida do regime até que encontrassem alguma forma de fortalecer suas posições. Os maçons também influenciaram estas mudanças e embora prefiram o anonimato, cada vez mais tem ensaiado influenciar o governo, quer ele seja monárquico ou republicano. Porém, no caso da abolição, afirmam que seus interesses são humanitários. O tempo, quem sabe, revele as reais intenções de cada um ou esconda de vez a realidade dos fatos.

Mais uma vez olho para o meu filho que, pelo movimento dos olhos, parece sonhar e penso nos inocentes que ainda permanecem acorrentados e que continuarão desamparados por um bom tempo.Também me lembro dos ingênuos que morreram desde a aprovação da Lei do Ventre Livre, pela falta de interesse de seus senhores em mantê-los. Uma boa parte dos membros da Câmara Geral, do Senado ou mesmo entre os Ministros tomou a decisão da abolição da escravatura com base em outros interesses que não o dos escravos.

Para os pretos, não há como fazer o caminho de volta para a África. Assim, o maior desafio será o de conquistar espaço entre o povo desta nação. O Brasil já tem um pouco dos costumes africanos incorporados à sua cultura, muito embora os brancos não percebam ou finjam não perceber. Preferem abominar as músicas, as danças e a religião dos negros.

No Largo do Paço Imperial, a multidão aguardava o anúncio da sanção da Lei já aprovada pela Câmara Geral e pelo Senado. O burburinho era grande, havia gente das diversos níveis da sociedade, misturavam-se nobres, comerciantes, membros do clero e muitos negros e mulatos. Mais de dez mil pessoas.

O fim da escravidão já parecia inevitável. Os demais países do ocidente já haviam abolido a escravatura, restava o Brasil. A maioria dos negros já não era mais escrava: alguns alforriados, outros compraram sua liberdade trabalhando como escravo de ganho, os mais novos ganhavam a sua liberdade ao nascer depois da Lei do Ventre Livre.

Nosso país é quase um continente, porém, mais se assemelha a um arquipélago pelo isolamento e diferença de suas regiões. Assim, alguns estados já não tinham mais escravos, como São Paulo, Ceará, Amazonas e no Rio grande do Sul.

A Lei estava assinada, atendeu a voz do povo nas ruas. As palavras constantes do documento eram simples: “É declarada extinta desde a data d’esta Lei a escravidão no Brasil”. Simples para não deixar dúvidas, sem exceções. Não era como as que a precederam e que buscaram apenas ganhar tempo para a manutenção da escravidão no país.
A Princesa Isabel e o Barão de Cotegipe, atendendo ao clamor do povo, dirigiram-se até um dos balcões do Paço. Ele dizia algo ao pé do ouvido dela, fingia estar feliz com a situação. Ela respondeu em baixo tom como que a reafirmar a sua decisão. O Barão foi o único Senador a votar contra a Lei. A Princesa já o afastara da Presidência do Conselho dos Ministros pela sua oposição ao abolicionismo, pregavam os jornais.A multidão foià loucura com o aceno da Regente. Pétalas de flores eram lançadas por senhoras felizes. Os escravocratas e racistas baixavam a cabeça.

Um colega, apesar de republicano, já deraum título para a Princesa: A Redentora. Promete estampa-lo na primeira página de seu jornal. Outros minimizam o efeito da lei, que não garante aos descendentes de africanos as condições mínimas para sua sobrevivência. Realmente a vida dos escravos libertos não será fácil. Precisarão disputar com os imigrantes europeus os trabalhos nas fazendas.

Fala-se aos quatro ventos que os imigrantes trabalham mais que os negros, o que não é verdade. Os estrangeiros possuem outra motivação: ganhar dinheiro e voltar para sua terra.Os escravos, hoje raros, custam caro, assim, os fazendeiros não têm mais interesse em mantê-los. Restará a eles morar em lugares precários, passar fome ou refugiar-se nos quilombos que até então serviam de abrigo para os fugitivos. Os que ficarem nas fazendas, muito provavelmente continuarão a levar uma vida similar a de escravos.

Não há como nos iludirmos quanto a uma vida diferente para os pretos nesses primeiros tempos. Em países como os Estados Unidos, mesmo após a sua guerra civil, onde negros e brancos morreram aos milhares, não houve políticas para inclusão dos negros na sociedade, pelo contrário, continuaram sendo perseguidos, mortos ou expulsos, na maior demonstração de racismo.
Como os brasileiros lembrarão Isabel no futuro? Darão valor ao seu ato ou simplesmente a esquecerão. Talvez a declarem culpada pela continuidade da exclusão dos negros. Outros, quem sabe,a condenarão ela pela ruína de seus negócios, pela perda de suas “propriedades”, os escravos.

E a família da Princesa, o que pensa? Seu pai a apoia mesmo? Seu marido não a culpará por uma possível queda da Monarquia? E se a República vingar, como tratará a Família Imperial e sua corte.

Carlinhos me esperou ansiosamente, o dia todo. Sai logo cedo. Na véspera eu disse a ele que nesta data o futuro nosso e de nossos descendentes estava sendo desenhado, de forma mais incisiva. Ele repetiu minhas palavras à sua mãe que reagiu a fala do menino com lágrimas nos olhos.
Meu filho e eu trilharemos um caminho diferente dos do nosso povo, mas somos exceção. Meu pai foi um mulato que com o seu trabalho comprou nossa liberdade, o que me permitiu a vida de homem livre, estudar, trabalhar e exercer a minha profissão, conseguir um mínimo de respeito. Tenho bons amigos brancos e sei que podemos conviver bem, compartilhar experiências, aprender uns com os outros. Todos nós podemos contribuir para uma sociedade justa, basta um pouco mais de tolerância.

Na janela do Paço, olhei mais uma vez para a Princesa de 41 anos. Hoje ela não porta o seu chapéu com camélias, como as cultivadas no Quilombo do Leblon, porém, as flores são a sua marca. A Princesa das Camélias agora tinha o olhar triste, que tentava disfarçar com um sorriso tímido. Um homem se ajoelhou aos seus pés. Ela pediu que se levantasse.

As pessoas não arredavam pé do largo, mas, pouco a pouco o espaço foi ficando vazio. Chegava ao fim a tarde, quase noite, do dia do 121º ano do nascimento de Dom João VI, bisavô da Princesa, o homem que mudou decisivamente o futuro do Brasil com sua chegada em 1808, oitenta anos atrás.

Na cozinha minha esposa entoa uma canção, a mesma que a minha mãe cantava quando ainda morávamos nas terras do Barão e estava na hora de dormir. Sinto-me em paz. Vou esperar um pouco mais e depois colocarei meu filho na cama.

Ouço batidas fortes na porta, entrego meu filho nos braços de minha esposa e peço que o leve ao quarto. São alguns homens desconhecidos, um veste a roupa da polícia. Quando abro a porta o mais forte me empurra o peito e caio sentado. O soldado grita: “Acabou de perder a sua liberdade! Que pena, a Lei nem bem foi assinada e sonhadores como você continuam sem espaço. Precisam entender que o mundo não é movido por ideais e sim pelo dinheiro”.

Colocaram-me um capuz na cabeça e, quando o retiraram, eu me vi num local desconhecido, escuro, repleto de instrumentos de tortura. Vários outros negros estavam acorrentados, um levava chibatadas, outro, ao meu lado, permanecia em silêncio, as marcas em seu rosto e espalhadas pelo corpo retratavam toda a espécie de sofrimento pelos quais passara. Ele parecia não mais temer a dor, talvez esperasse pelo fim de tudo, quem sabe a morte o libertasse. Num dos cantos outro homem gemia de dor.

Um sujeito se aproximou, colocou-me uma argola no pescoço, arrancou meus sapatos e acorrentou-me mês pés.Com dificuldade eu tentava suportar o peso, a dor e equilibrar-me sobre o piso de pedras irregulares. Ele rasgou as minhas roupas e apanhou um ferro em brasa. Cuspiu em meu rosto e falou: “Então jornalistazinho de merda, você escolheu o nome de Lei Áurea para aquela aberração de texto? Não haverá nada de nobre ou de santo na sua morte, nada de dourado, apenas um simples ferro em brasa para sufocar o seu grito de liberdade”.

Senti minha carne arder e o cheiro de queimado invadiu o ambiente. Gritei de dor. O suor molhava todo o meu corpo. O homem gargalhava e eu podia ver cada um de seus dentes podres.Um desejo de vingança invadiu o meu peito. Senti todo o ódio, o rancor de uma raça contra aqueles que a privam de liberdade.

Meu filho me abraçou e assustado tentava me acordar. Minha esposa que preparava a mesa quase derrubou a travessa. Felizmente eu estava em casa, livre, junto daqueles que mais quero.
Já tenho o título para o meu artigo: “A Lei Áurea”.


Texto selecionado no Concurso de Contos A Princesa Imperial da Série Glorioso Império do Brasil - Publicado em antologia dez/2014

Adnelson Campos
24/02/2015

 

 

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