Jussara Lucena, escritora

Textos

Átila

Estou tremendo de frio e minhas pernas estão fraquejando. Não tenho fome. Queria um lugar para me esconder, morrer em paz. Não tenho como, pois, a corrente me prende a esta maldito lugar onde passei este meu último ano.Meus olhos insistem em fechar e euainda teimo em mantê-los abertos. Se eles voltarem preciso estar atento.

Ainda me lembro da primeira noite quando cheguei àquela casa. Ganhei um casaco de lã como cama e uma caixa de papelão como abrigo, colocados bem pertinho da porta de entrada, meu cantinho preferido. Como era bom o calor da mão dele, o carinho dela.

O tempo foi passando e me dei conta do meu papel na vida deles. Viviam sozinhos e eu cheguei para preencher um pouco de suas vidas e recebi com muito gosto o amor que eles tinham para dividir.Como eu gostava de brincar, enroscar-me nas pernas dele,prender a bola, correr e correr, puxa-lo pela barra da calça.

Eu sempre fui bom, tinha muito carinho para dar, mas, eu mesmo não compreendia o que acontecia comigo. A minha calma, a minha tranquilidade desapareciam rapidamente e eu ficava muito agitado. A presença de pessoas na rua me irritava, eu não resistia e latia insistentemente até perder as forças. Isto incomodava a eles e os vizinhos também. Eu corria de um lado para o outro rente à grade frontal até minhas patas sangrarem.

Eu me sentia bem com a minha coleira, detestava a guia. Queria muito andar na rua ao lado dele, não conseguia controlar meu comportamento. O movimento me deixava nervoso e eu só tinha vontade de fugir. Ele me repreendia chamando pelo meu nome: Átila! No carro eu fazia o mesmo, babava em todos os vidros. Desistiram e eu fui sempre ficando em casa.

Os finais de semana eram sempre bons, pois, ele ficava mais tempo em casa e nas tardes de sábadome dava banho. Ele gostava quando eu bebia água na ponta da mangueira e para agradá-lo eu ficava com a barriga quase estourando. Eles falavam muito comigo e eu pacientemente ouvia, olhava com atenção.

O tempo passou e eu ganhei um amigo. Apesar das diferenças ele era mais parecido comigo, falava a minha língua. Era um filhote de boxer,meio bobo,chamado Kim. O cãozinho queria brincar o tempo todo, era incansável. Tive que ensinar muita coisa para ele, que só parecia ter defeitos. Era guloso, não se contentava em comer só a parte dele, atacava o meu prato.

Ele também gostava de me morder e invocava com o meu rabo. Eu também estranhava o meu rabo, que não combinava comigo, um pastor alemão. Ouvi dizer que puxei à minha mãe, uma cadela com pedigree e o meu rabo ao meu pai, um cão aventureiro.

Confesso que me senti menos só com o Kim. Dormíamos os dois na garagem e nos revezávamos vigiando a casa. Só me incomodava ele pular na minha frente quando eles abriam a porta pela manhã e eu não pude mais ser o primeiro a cumprimentá-los.

O Kim cresceu e eu não conseguia mais dominá-lo. Apesar de menos ágil ele era mais pesado e eu sentia o peso dos anos em minha vida.

Certo dia eles passaram a ser três. Ele me apresentou um garotinho sorridente. Gostei do cheiro dele, aproveitei um momento de descuido o lambi. O Kim queria pular em cima do garotinho, não deixei, ele era pequeno e frágil.Depois daquele dia eu e o Kim ficamos um pouco mais de lado, porém, continuei me sentindo importante, precisava cuidar daquela coisinha também.

Como ficávamos mais sós, eu e o Kim aumentamos o nosso companheirismo e as brincadeiras, latindo ainda mais ainda para os carros e para as pessoas que passavam pela rua.

A vizinha da frente gritava com a gente, parecia ter ódio no olhar. Ela nos ameaçava com gestos e gritos. Eu sentia que ela nos queria muito mal. Certo dia ela se aproximou, com palavras carinhosas. Foi estranho, muito estranho.Voltou à noite e jogou um pedaço de carne por sobre a grade. Eu nunca comi nada que não tenha sido dado por ele, por isso, afastei-me. Já o Kim, guloso como era, comeu tudo numa bocada só e se lambendo parecia rir de mim por não ter experimentado nenhum pedacinho. As horas foram passando e o Kim foi ficando doente, gemia de dor.
Já era tarde, as luzes da casa já estavam apagadas.
Comecei a latir, tentando chamar a atenção deles até que uma luz se acendeu. Ele abriu a janela e viu o Kim se arrastando pelo chão, quase sem forças. Desceu rápido examinou o meu amigo, abriu a porta do carro e com muito esforço conseguiu carrega-lo no colo. Eu tentei ajudar, mas não sabia como. Tentei entrar no carro também, ele não deixou. Esta foi a última vez que vi aquele cachorrinho travesso.A tristeza tomou conta da minha vida por um bom tempo e aumentou a minha solidão.

O garotinho cresceu, ganhou cabelos encaracolados e quando começou a caminhar deixavam que ele brincasse um pouco comigo. Ela tinha medo que eu o machucasse, ele colocava o garotinho nas minhas costas quando ela não via. Era um pouco pesado, mas eu gostava.Eu retribuía o carinho com lambidas.

Passado mais algum tempo eu pude perceber a mudança no corpo dela e sabia que em pouco tempo teríamos uma nova companhia. Mais um garotinho chegou. Ele era um pouco diferente do outro, já veio com cabelos. O segundo garotinho foi crescendo junto com ele atristeza também crescia em mim. As brincadeiras deles comigo agora eram raras e eu fui ficando mais agitado, queria chamar a atenção deles. Piorei a situação quando um acidente ocorreu.

O garoto que veio mais tarde era mais arrojado, andava por tudo e um dia abriu o portãozinho que delimitava o meu espaço, saiu e veio brincar comigo. Fiquei apavorado, ele podia se machucar, tentei me afastar. Ele veio atrás e fez algo inesperado: puxou o meu rabo. Logo o meu rabo, aquela coisa estranha. Por instinto reagi e me virei com a boca aberta e meus dentes tocaram o seu rosto, próximo dos olhos. O menininho começou a chorar e eu pude perceber que sangue escorria em sua face.

Ele estava caído de costas, tentei ajudar, estava sobre o garotinho quando ela chegou e começou a gritar comigo e com ele. Dizia: “meu Deus, ele quis matar o meu filho! Mata esse cachorro!”. Aquilo doeu muito em mim, pude ver o ódio nos olhos dela. Eu a amava.

Ele me pegou pela coleira e me prendeu em minha casa. Eu queria ajudar, lamber a ferida, não me deixaram. Eles saíram às pressas no carro.Depois daquele dia passei a ficar mais tempo preso na corrente. Raramente me deixavam brincar com as crianças. Eu pedia, eles não me compreendiam. As crianças tinham medo de mim e eu só queria rolar na grama com eles.

A barriga dela cresceu novamente e um dia ouvi o chorinho de mais uma criança: uma menininha. Mal pude vê-la e não cheguei a ouvi-la me chamar pelo nome. Minha vida em breve se transformaria num pesadelo.

Uma senhora, que morava em frente, agora vinha me alimentar junto com eles. Ela falava comigo, e eu a deixava fazer carinho em mim. Ela tinha muita dificuldade com os movimentos e eu evitava me aproximar para não derrubá-la. Alguns dias se passaram até que algumas pessoas estranhas chegaram e começaram a carregar tudo. A casa ficou vazia. Ele voltou e falou comigo, fez-me um afago e chorando me pediu para cuidar da casa. Assim que fosse possível voltaria me buscar.

O tempo foi passando e a minha única e eventual companhia era a senhorinha. Eu não deixava mais ninguém entrar. Certo dia ele apareceu. Eu não sabia o que fazer: latiria de alegria ou de raiva pelo abandono.Ele insistiu em que eu comece algo que ele tinha nas mãos. Hesitei, mas acabei comendo. Fiquei tonto e quando me dei conta estava viajando na carroceria de um carro, amarrado a uma corrente. Eu não queria deixar a minha casa, eu só queria que eles voltassem. Pensei: ao menos vou encontra-los novamente.

Depois de muitas horas cheguei a um local estranho. Prenderam-me a uma casa e uma corrente das quais não gostei. Os cães que lá moravam latiam, me ameaçavam. Fiz muita força para escapar, minhas pernas não respondiam.Ele me disse: Átila, não tenho onde colocar você, me desculpe. Fique bem! E saiu.

Meus dias se tornaram ainda mais tristes. Fui me tornando magro, amargo e cada vez mais nervoso.Certo dia ele voltou e se aproximou. Não sei o que deu em mim, o ataquei. Quando pulei ele deu um passo para trás e meus dentes rasgaram a sua camisa. A corrente, felizmente, me impediu de atingi-lo. Só aí me dei conta do que eu havia feito. Vi as lágrimas escorrendo do seu rosto e ele me disse adeus para nunca mais voltar.

Hoje faz pouco mais de um ano em que o vi pela última vez. Esperei por todo este tempo por uma possível volta dele. Não terei forças para esperar mais. Esta será a minha última noite de lua cheia. Quem sabe eles também estejam olhando para ela agora, como fazíamos com as crianças nos fundos da nossa casa.

Texto selecionado para compor a Antologia Pets Companhia, editado pela Editora Illuminare e organizada por Antônio Guedes Alcoforado

Adnelson Campos
23/02/2015

 

 

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