Jussara Lucena, escritora

Textos

A Pequena Havana

Em 2008, atravessei o atlântico pela primeira vez e pousei na Espanha. Depois de pernoitar na capital espanhola, fui para a cidade de Cádiz, ou a Pequena Havana, como alguns costumam chamá-la, dado a sua semelhança arquitetônica com a capital cubana. A cidade está situada na Andaluzia, região de partida de muitas das expedições que descobriram e depois ajudaram a ocupar a América.

Fiquei ansioso para conhecer um pouco da história do lugar e nada melhor do que caminhar pelas ruas de uma cidade para conhecer um pouco dos hábitos de seu povo e de sua cultura. Sempre achei que encontraria algumas semelhanças com nossos costumes. Surpreendi-me com o que encontrei.

O povo espanhol é muito religioso, predomina o catolicismo e na pequena cidade, a exemplo do que ocorre em todo o País, existem muitas igrejas, algumas mais simples, outras mais ricas e até algumas exóticas.

Passando por uma de suas calles estreitas, percebi o movimento da entrada de pessoas em uma das construções antigas do local. Quando me aproximei de uma pequena porta, instalada em uma porta maior de madeira, amarrada por peças metálicas e muitos cravos, pude ouvir cantos religiosos que me pareciam familiares. Resolvi entrar. Embora externamente não parecesse, era uma igreja, pequena, mas com um enorme pé direito, um belo altar esculpido em madeira que ocupava toda a parede. Possuía muitas imagens e esculturas representando as principais personagens da história da igreja católica.

Antes de começar a missa, um grande grupo de pessoas rezava uma novena. Após observar por alguns instantes, fui transportado para a minha infância, época em que freqüentava as aulas de catecismo. Minha professora era a minha tia. Muito religiosa, costumava puxar o terço nas novenas da pequena capela de nosso bairro ou nas casas de pessoas da Comunidade. Depois de algum tempo acompanhando-a em sua missão voluntária, em muitos dos eventos eu mesmo passei a puxar o terço. Memorizei cada uma das etapas, os tempos necessários e os cantos de costume.

Não podia imaginar que um dia, mesmo estando no Velho Continente, num país com outro idioma, eu me sentisse tão à vontade para repetir o ritual das novenas de infância. A mesma entonação, o mesmo ritmo arrastado das rezas e cantos sem acompanhamento de instrumentos musicais. Refleti sobre o ocorrido e cheguei a conclusão de que aqueles costumes atravessaram a barreira do tempo e resistiram por mais de quinhentos anos, mantendo aqui no Brasil a fidelidade às origens, que parecem ser comum para espanhóis e portugueses.

No dia seguinte continuei minha caminhada e meu momento de maior aprendizado foi em um dos museus da cidade. Embora Cádiz seja um museu a céu aberto, onde em cada escavação ou demolição sejam encontrados vestígios de civilizações anteriores, no museu o acervo é organizado cronologicamente. Lá encontrei objetos da idade do bronze, da passagem dos fenícios que usavam o lugar como ponto comercial e a partir daí, das civilizações que ocuparam ou invadiram a cidade como os mouros, os romanos, ingleses e outros.

Impressiona o desenho e o esmero no fabrico das joias antigas expostas no local. Com certeza servem de inspiração para os atuais designers. O curioso é que tais ornamentos são anteriores a era Cristã. A mesma idade tem objetos fabricados em vidros das mais diversas cores.

O ambiente permite dar asas à imaginação ou mesmo sentir as emoções vividas pelos habitantes do local. Paralisei-me diante de um túmulo que foi transportado até o museu. A cena dos restos mortais ali expostos me parecia familiar. A cova possuía um esqueleto, deitado de costas. Aos pés, uma placa com as inscrições “Aqui jaz uma cidadã de Pompéia amada e querida pelos seus”. Imaginei, pelo cuidado na construção do túmulo, que talvez ela fosse a esposa de um dos homens fortes de Roma que administravam o lugar. Por mais incrível que possa parecer, olhando para os restos passei a visualizar os movimentos e expressões da mulher que lá vivera, na época da ocupação romana.

Ela se revezava entre as atribuições de mãe e de esposa e as aparições em eventos públicos na companhia do marido. Era ainda jovem. Saíra da casa de seus pais, em Pompéia, direto para um navio que a levaria até a região gaditiana. Lá vivera por quase dez anos isolada na área fortificada da cidade romana em território hoje espanhol. Vivera segura, porém afastada da realidade de fora das muralhas.

Na sua última noite comparecera a uma apresentação no Teatro Romano quando no retorno para casa o seu grupo foi atacado por alguns rebeldes que queriam vingança pelo massacre ocorrido no dia anterior, em uma pequena aldeia, onde soldados romanos à procura de um ladrão invadiram a casa de pessoas inocentes e tiraram suas vidas de forma vil e despreocupada. Ela foi vítima de uma lança improvisada, atirada na direção de alguns soldados, mas que por acidente a atingiu. Seu sofrimento durou por alguns instantes e na sua mente vieram algumas lembranças como a imagem do único filho, um garoto de seis anos, Marcus Vinícius. A saudade de sua terra, dos seus pais, do som do mar batendo aos pés do Vesúvio, das brincadeiras de infância. O brilho no seu olhar intensificou-se e após uma última inspiração e a vida se foi.

Pareci despertar quando o vigia me tocou os ombros e fez um sinal. O museu estava fechando. Sai de lá ainda impactado pela visão e passei a perambular pela Pequena Havana, envolvida pelo mar, coberta pelo manto da noite que chegava e impregnada de histórias. Os fantasmas dos povos que a habitaram pareciam ganhar vida sob as luzes artificiais ou nas sombras e fachadas dos sobrados construídos nas ruas estreitas e calçadas com pedras. Se acaso somos influenciados por vidas passadas, talvez aquele lugar tenha algo em comum comigo.

Na beira do mar olhei para o oeste, para o oceano, que parecia infinito e lembrei que somos uma mistura de povos e de culturas. Pensar que aqueles que vieram do velho continente para cá e nos antecederam também sofreram a influência da miscigenação e da migração dos povos da própria Europa, Ásia e África é algo curioso. Nos, cidadãos deste mundo temos muito mais em comum, uns com os outros, do que podemos imaginar.

Adnelson Campos
21/03/2015

 

 

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