Jussara Lucena, escritora

Textos

Chuva

Minha mãe está preparando a mamadeira para o meu irmão caçula. Posso ouvir o som da chama do fogão que aquece o leite. A casa é muito pequena, cozinha e quarto se confundem, no único cômodo. Eu e meu irmão do meio estamos deitados na cama. O ambiente é iluminado por uma única lâmpada, pendurada em um fio trançado que se projeta em meio à estrutura do telhado. As telhas são escuras, não há forro, apenas sombras.

Lá fora se anuncia uma tempestade, podem ser ouvidos trovões e a luminosidade dos raios penetra pelas frestas das telhas. O bebê chora com os estrondos, meu irmão se agarra em meu braço buscando proteção. Mamãe tenta nos confortar, porém ela também está assustada. Uma das descargas elétricas deve ter caído muito perto e o deslocamento do ar fez tremer a frágil construção que nos abriga.

Minha mãe dá a mamadeira ao bebê enquanto sussurra a canção do bicho feio que insiste em ficar em cima de nosso telhado. Quem sabe ele tenha medo da chuva e vá embora! Meu pai como sempre chega muito tarde do trabalho nas obras. Ele pega muitas conduções para chegar em casa. Como eu gostaria que ele já estivesse aqui.

Na parede, próximo ao armário da cozinha há um pequeno quadro com a imagem de crianças debaixo de uma macieira, estão bem arrumadas e coradas. Uma das maçãs está sobre a face de um menino, que parece sentir dor. Minha mãe disse que uma das frutas caiu e o cabo perfurou o olho do menino. Fiquei pensando em por que alguém pintaria um quadro assim, mostrando o sofrimento de um pequenino.

Os trovões aumentam e a chuva começa. Estou escondido debaixo do cobertor. As goteiras estão molhando a cama. Minha mãe abre o armário e tira dele um pedaço de plástico que usa para cobri-la. Ela e o bebê também vêm para baixo da cobertura plástica. O temporal dura uma eternidade e o granizo que cai parece tentar destruir as telhas. Como estará o meu pai? Ninguém consegue dormir.

Mamãe resolve ligar o rádio. Tem dificuldade para sintonizar alguma estação no velho aparelho, gira o botão até que consegue. O locutor apresenta um anúncio de remédio para o fígado. Finalmente começa uma canção: Índia. Tento imaginar como seriam os cantores, será que a cantora é a Índia? No noticiário, com a voz entrecortada pelas descargas elétricas, o repórter relata a morte de cinco operários que trabalhavam na construção de uma ponte. Mamãe pareceu se abalar com a informação. Ela agora reza.

A chuva continua e papai não chega. A água das goteiras agora se acumula pelo chão. Mamãe colocou uma bacia de alumínio ao lado da cama, a mesma que usava para nos banhar. Tenta em vão conter os pingos incessantes.

Minha mãe volta a entoar canções de ninar, apesar da garganta seca e da angústia pela espera de meu pai. A chuva dá uma trégua. Meu irmão e o bebê pegam no sono. Eu finjo dormir. Agora na noite silenciosa ouço apenas as goteiras e o tique-taque do relógio despertador. Mamãe chora e tenta sufocar seus soluços. As horas passam. Ela se levanta, abre a porta e olha em direção ao vazio, no negro da noite renova a esperança de reencontro. Com frio volta para cama e amarga mais um pouco da espera.

O dia está amanhecendo, o portão se abre, ouvem-se passos. Num salto ela sai da cama e suspira. É meu tio. Ele não consegue olhar nos olhos de minha mãe, mantém a cabeça baixa. Minha mãe engole as lágrimas e olha em direção a nossa cama. Meu pai não voltará. Foi chamado pelo Papai do Céu.

Texto selecionado para a antologia do Concurso Literário de Presidente Pridente - CLIPP 2015 - Ruth Campos, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Presidente Prudente em outubro de 2015.

Adnelson Campos
29/10/2015

 

 

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