Jussara Lucena, escritora

Textos

A Missa do Galo

Próximo dos oito anos de idade passei a entender um pouco mais o significado do Natal e, com o passar do tempo, a grandiosidade de cada uma das personagens simbolizadas na Natividade. Tudo começou naquele ano em que, recém-chegados da cidade grande, passamos a compartilhar um pouco mais dos costumes e da cultura de uma cidade interiorana. Não que numa cidade grande o Natal não seja marcante, mas continuo acreditando, passados mais de cinquenta anos, que no interior é muito mais vivenciado. Foi nesse ano que vivi um dos momentos mágicos da minha vida. Jamais esquecerei o meu encontro com aquela Estrela.

Naquela época, muitas famílias ainda podiam ir até a mata e escolher um pinheirinho para servir de Árvore de Natal. Galhos, folhas e barba-de-pau eram utilizados na montagem dos Presépios. Mas já existiam as árvores artificiais. Os enfeites eram especiais e, como os de outrora, são difíceis de se encontrar. As bolinhas, fabricadas em vidro soprado eram mais frágeis, dessa forma, criança chegar muito perto da árvore era proibido. Os enfeites haviam passado por gerações e eram cuidadosamente preservados. Isto despertava ainda mais a curiosidade e a vontade de tocar, de enxergar com as mãos cada uma daquelas preciosidades. Me lembro da minha tia explicando, à medida que os desembalava, a simbologia de cada um dos enfeites.

Embora eu ainda não tivesse plena consciência da grandiosidade da história contada a partir da Boa Nova, eu sentia uma imensa vontade de montar a minha Árvore de Natal, o meu próprio Presépio. Teria muitos anjos, bolas com a imagem do Menino Jesus, uma grande Estrela Guia no topo, sinos e muitas e muitas bengalas. Também deixaria espaço para o Papai Noel.

Nosso pinheirinho não tinha luzes, apenas uma lâmpada que iluminava a manjedoura do Menino Jesus. A estrela da copa, fui em quem colocou. As pequenas estátuas dos Reis Magos me intrigavam e uma pergunta não me saía da cabeça: se Jesus renasce a cada 25 de dezembro por que nós também não enxergamos a Estrela de Belém?

Pensando nos Reis Magos, imaginei suas longas viagens para honrar e presentear Jesus. Com base na sua fé, enfrentaram perigos e obstáculos seguindo uma estrela. Assim, além da vinda de Jesus testemunhada por eles, abriram espaço para que as crianças recebessem presentes no dia de Natal. Como toda criança, eu adorava presentes. Mas meu pai sempre lembrava: “mais importante que os presentes no Natal é a lembrança da vinda do Salvador”.

Nos dias que antecediam o Natal e o Ano Novo todas as famílias procuravam deixar as casas mais limpas, mais bonitas para as Festas. O jardim com a grama cortada e arbustos podados, as paredes pintadas, o chão bem lavado e encerado entre outras arrumações.

Também havia o costume de preparar as bolachas caseiras. Minha mãe se juntava às suas duas irmãs, reunindo também os nossos primos e todos ajudavam de alguma forma. O leite e os ovos eram de casa mesmo. Os demais ingredientes eu era o encarregado de comprar no centro da cidade.

Depois de tudo reunido, alguns preparavam a massa para ser aberta com o rolo, outros a cortavam com os moldes e colocavam na forma para assar. Quando eu ajudava a cortar a massa, aproveitava a distração de minhas tias e comia as rebarbas da massa ainda crua. Levei alguns tapas na mão por isso.

Colocadas no forno a lenha para assar, saíam muito cheirosas, nas mais diversas formas: borboleta, estrela, anjo, folha, Papai Noel. No sentimento de criança, nos parecia que cada uma tinha um sabor diferente e que se acentuava com os confeitos preparados com glacê feito à base de clara de ovos, batida por nós, os pequeninos, até o amortecer da mão por tanto agitar o garfo nas pequenas tigelinhas de louça.

Depois de prontas, as bolachas eram guardadas em latas grandes para serem servidas nos cafés e lanches do período de festas. A preparação das bolachas rendia muitas histórias, risos gargalhadas e o principal resultado era a maior união das famílias.

Tudo preparado, nós aguardávamos ansiosamente a chegada do Papai Noel que nos dias que antecediam o Natal mandava alguns de seus ajudantes jogar balas para as crianças enquanto desfilava na carroceria de alguns veículos que percorriam as ruas do bairro.

Na noite daquela véspera de Natal nos arrumamos para ir à Missa do Galo, que acontecia à meia-noite. Mas o que o galo teria a ver com o Natal? Minha mãe me disse que o nome da missa se devia ao fato dela terminar já de madrugada e quando as pessoas retornavam para suas casas os galos começavam a cantar. Meu primo me disse que a catequista de um garoto da escola contou para ele que no dia do nascimento de Jesus ouviu-se um galo cantar muito forte, anunciando para todos o nascimento do Salvador.

Apesar de já iniciado o verão, fazia frio. Minha mãe vestiu-nos com a melhor roupa que tínhamos. Estávamos ansiosos, pois dormíamos cedo nos demais dias do ano. Meu irmão mais novo saiu dormindo no colo de minha mãe. Eu, meu segundo irmão e meu primo estávamos eufóricos.

Fomos até a Igreja Matriz, pois na nossa Capela não haveria a missa. Subimos na carroceria do Jeep do meu tio que não tinha capota ou assentos. A noite estava escura, sem Lua, sem nuvens. Pouquíssimas ruas além da nossa possuíam iluminação, o que permitia enxergar todas as estrelas do céu. Meu tio pedia que olhássemos o braço da Via Láctea, a galáxia onde vivíamos. Pela primeira vez pude identificar no céu o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e outras estrelas apontadas por ele. Perguntei ao meu tio pela Estrela de Belém. Ele me respondeu que somente as pessoas de coração mais puro conseguiam enxergá-la. Apontei para algumas perguntando se não seriam aquelas. Minha prima mais velha fez pouco caso comigo pois, as que eu havia apontado nem eram estrelas e sim planetas. Já minha tia me repreendeu por apontar para as estrelas: cresceriam verrugas na ponta do meu dedo. Fiquei sem apontar para elas durante muito tempo. Talvez por isso, apontar estrelas seja o que eu mais faça hoje quando olho para o firmamento à noite.

Quando chegamos na igreja, nós, os pequeninos ficamos encantados com o Presépio montado. Todos estavam lá, menos o Menino Jesus. O padre passava pelo corredor. Arrisquei interromper o seu trajeto e questionei a ausência do Menino. O padre, um senhor beirando os setenta anos, franziu a testa, perguntou quem era a minha catequista e me respondeu que Ele ainda não havia nascido, que depois da missa Ele seria colocado no seu lugar de honra. “Catequisando deveria saber” – repreendeu-me o padre. Eu queria perguntar sobre a Estrela-Guia, não tive coragem.

Uma senhora que estava ao lado passou a mão na minha cabeça, num gesto de consolo. Me perguntou se eu conhecia todas as personagens do Presépio. Antes que eu respondesse ela foi me explicando um a um, o que representavam. Uma coisa ficou bem evidente para mim: Deus escolheu a simplicidade para o nascimento de Seu Filho na Terra. Já pequenino enfrentou desafios para proclamar o Seu Reino, não tendo abrigo para nascer, depois fugiu de Herodes, da morte antecipada. Muitos pequeninos não tiveram a mesma sorte. Desde cedo os sábios o reconheceram pela sua sabedoria e Ele desafiou o descrédito dos ignorantes. “A figura do Presépio, o pequeno estábulo, é a representação do início de uma jornada corajosa” – me disse a velha senhora. Ela se virou para sair, deu alguns passos e voltou-se novamente para mim e completou: “não desista da busca da nossa Estrela”. Nunca mais a vi, as pessoas da minha família não a conheciam. Penso que talvez fosse um Anjo vigiando o local para a chegada do Senhor e que aproveitou para me dar um recado.

A celebração foi longa e ainda me lembro, como se fosse hoje, das pessoas cantando fervorosamente o Glória, entoando os louvores dos Anjos ao Senhor pelo nascimento do Salvador. Me emociono até hoje com o cântico, lembrando o som do coral, propagado pela perfeita acústica da igreja. Olhei com atenção para me certificar de que as vozes não vinham do céu. No sermão o padre explicou que o galo, passou a simbolizar vigilância, fidelidade e testemunho cristão. Talvez por isso o vizinho da casa em frente a nossa tivesse um galo estampado no cata-vento, feito de zinco, na chaminé de seu fogão a lenha, indicando a direção do vento ao mesmo tempo em que era vigilante.

Na volta ficamos muito felizes por ouvir ao longe um galo cantar. Mas e a Estrela de Belém? Não me conformava que eu não tivesse um coração puro para conseguir vê-la. Meu pescoço doía de tanto olhar para o céu e nada. Quando eu já estava desistindo, vi uma estrela cadente cortar o firmamento. Rapidamente fiz o meu pedido: “Deus, que eu possa enxergar a Estrela de Belém”.

Minha mãe serviu um lanche e arrumou as camas para que todos pudessem descansar. Deitei-me, mas por mais que eu tentasse, não conseguia dormir. Eu ouvia ao longe o som de mais alguns galos cantando na madrugada. Quando tudo se aquietou, foi uma coruja que piou e eu senti um pouco de medo.

No silêncio da casa, apenas se podia ouvir o ronco do meu tio. Levantei com o maior cuidado possível do nosso beliche. De repente um tiro, tremi. Foi mais uma das rolhas das garrafas de cerveja caseira, preparada pelo meu tio, que estourou.

Eu precisava olhar par ao céu, quem sabe a Estrela tivesse surgido. Todas as janelas da casa possuíam veneziana. Assim, tive que tatear para encontrar a chave da porta. Girei-a com muito cuidado. Senti o vento gelado invadir o espaço. Calcei os tamancos que estavam no degrau e voltei a olhar o céu límpido e estrelado por mais uma vez naquela noite. Permaneci observando por mais algum tempo. A não ser por Vênus, a Estrela D’alva – descobri mais tarde - que surgiu no horizonte próximo do amanhecer naquela época do ano, não havia nenhum outro ponto mais brilhante no manto negro da madrugada.

Desisti e entrei. Antes de voltar para o quarto, passei pela sala. Talvez o Papai Noel já tivesse passado. O assoalho da casa de madeira insistia em denunciar a minha presença.

Assim que passei pela porta, percebi o ambiente iluminado, porém as lâmpadas do lustre estavam apagadas. Quando olhei para a Árvore de Natal percebi que era a estrela colocada no topo dela que brilhava intensamente. Alguns dos raios emanados iluminavam diretamente o Menino Jesus em sua manjedoura. Dois anjos apareciam em destaque sobre o Presépio, pendurados num dos galhos.

A luz da estrela que eu mesmo colocara na copa da árvore, ao mesmo tempo me atraía e ofuscava. Senti uma vontade enorme de tocá-la. Quando me aproximei, perdi o equilíbrio e caí sobre a base da árvore que tombou sobre mim.
Todos acordaram com o som do pinheirinho caindo e das bolinhas de vidro quebrando com o impacto no chão. Eu tentava em vão sair dali. Minha mãe e minha tia ficaram aborrecidas com os danos na Árvore. Meu tio lembrou a todos do Espírito do Natal, época de confraternização, de renovação e de perdão, enfim de bons sentimentos. Com isso todos se acalmaram. Eu chorava copiosamente.

Minha prima me trouxe um copo de água com açúcar e aos poucos eu parei de soluçar. Contei o que havia acontecido. Todos riram. Minha mãe disse que eu estava sonhando e caminhei num episódio de sonambulismo. Insisti, não adiantou.

No dia seguinte, após a Árvore de Natal ter sido refeita, minha mãe e minha tia encontraram, em meio aos demais objetos, dois pequenos anjos de porcelana até então inexistentes para elas. A imagem do pequeno Menino Jesus agora parecia ter um sorriso maior. As duas chegaram à conclusão de que a memória já não as ajudava tanto e deveriam ter comprado ou ganho de alguém os dois anjinhos. Eu tive a certeza de que tudo fora real.

Adnelson Campos
24/12/2015

 

 

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