Jussara Lucena, escritora

Textos

Branca

A Páscoa já estava quase chegando. Eu fui passar o dia na casa da minha Baba. Como ela havia me prometido, me ensinaria a fazer as pêssankas. Curiosa, eu já a havia espiado atrás da porta, pois ela ficava muito concentrada e não queria ser incomodada. Passava horas e horas sentada em frente a vela. Depois deste ritual que durava diversos dias, todos esperavam pelo café da manhã, no domingo de Páscoa, para ver aquelas maravilhas, descobrir qual seria o presente de cada um. Eu sabia que cada desenho, cada estampa tinha o seu significado, mas a partir daquele dia, descobri que eles eram mágicos também.

Aproveitei a carona no carroção do meu tio. Ele levava uma carga de erva-mate até o porto. Eu e o meu irmão mais novo, o Ladislau ou Ládio, como era chamado, fizemos plano de um dia nos escondermos em meio a erva e assim viajar a bordo de um dos vapores, subindo o Iguaçu até Porto Amazonas. Diziam que os vapores desapareceriam depois da chegada da ferrovia e foi o que aconteceu.

Naquela época, meu pai sonhava em ter um carroção igual ao do tio Waldomiro, com uma parelha formada por oito belos animais, e sair por aí ouvindo o gemido das rodas, sentindo a brisa da estrada e os pingos da chuva no rosto. Ele até já havia escolhido o nome para os animais. Não viveu o suficiente para consegui-lo, mas o Ládio sim.

O trajeto foi divertido, normalmente eu s√≥ andava na charrete, apertadinha no banco, por isso, o carro√ß√£o era especial para mim. Eu e o L√°dio √©ramos os dois mais novos de treze irm√£os. Meu Dido dizia que a fam√≠lia deveria ser numerosa: ¬ďa lavoura precisa de muitos e fortes bra√ßos¬Ē ¬Ė repetia sempre. Papai seguiu o seu conselho.

Minha Baba acordava muito cedo, antes do que n√≥s. Na estrada, ao longe, eu via a fuma√ßa que saia da chamin√© do fog√£o, assim a chapa j√° estaria pronta para os pinh√Ķes que eu havia catado no dia anterior. Ela ficaria contente, pois com tantas tarefas, catar pinh√Ķes ficava num segundo plano.

Quando eu apanhava pinh√Ķes, lembrava da hist√≥ria repetida pelo meu Dido. Quando eles chegaram da Europa, sem comida, sem rem√©dios. Tinham umas poucas ferramentas. As terras que lhes foram dadas eram s√≥ matas, repletas de arauc√°rias, imbuias e canelas. Tudo precisava ser transformado em terra para agricultura, pois cultivar era o que eles sabiam fazer. Sonhavam com os belos campos prometidos, onde plantariam trigo e cevada. Os primeiros dias foram muito dif√≠ceis. Parece uma coisa simples hoje, mas quando chegaram nem sabiam como aproveitar os pinh√Ķes e muitas vezes sentiram fome at√© descobrir como usa-los. J√° na minha inf√Ęncia, as crian√ßas faziam as sapecadas com grimpas de pinheiro embaixo da √°rvore mesmo.

Al√©m dos pinh√Ķes, eu tamb√©m levava uma cesta, com uma encomenda especial: eu juntara ao longo da √ļltima semana alguns ovos. Como recomendado, escolhi os mais branquinhos. Deixei-os de molho numa solu√ß√£o com vinagre, para ficarem bem limpinhos.

No caminho cruzamos com uma carroça. Ela estava repleta de tabuinhas de araucária em forma de telha. Era um amigo de meu pai que trabalhava a madeira. Meu pai, além de agricultor, também serrava madeira. Papai contava que as primeiras casas eram feitas de palha, xaxim ou taquaras. Com o tempo foram melhorando e passaram a ser feitas de tronco. Depois as toras foram desdobradas e farquejadas. Muitas eram construídas somente com encaixes, sem pregos.
Em 1918 j√° eram enfeitadas com lambrequins. ¬ďNenhum lambrequim √© igual ao outro, precisam ter identidade¬Ē - dizia meu Dido. Assim, cada uma de nossas casas possu√≠a um rendado diferente da outra.

- Dobryj ranok! ¬Ė disse o homem.

- Na vse dobre! ¬Ė respondeu meu tio.

- Bom dia! ¬Ė repeti a sauda√ß√£o em portugu√™s.

Lembrei que outra dificuldade para os pioneiros foi a língua. Nós já conseguíamos nos comunicar com os brasileiros e com os outros colonos. Apesar de ainda tropeçar nos erres e trocar os artigos masculinos pelos femininos, nossa geração conseguiu essa aproximação. Em nossa casa ainda falávamos o ucraniano e quando saíamos, tínhamos que tomar cuidado, pois nossos vizinhos não gostavam de nos ouvir falando a língua da terra natal dos nossos avós. Não era falta de respeito, mas talvez eles achassem que fosse.

Quando cheguei, minha Baba, que vestia o velho len√ßo na cabe√ßa e escondia os cabelos grisalhos, j√° tinha tudo pronto. Enquanto eu tomava um caf√© para espantar o frio, ela espalhava os pinh√Ķes sobre a chapa do fog√£o. Em pouco tempo j√° se podia ouvir o estouro das cascas e o aroma se espalhando pela casa.

Depois de tanta espera, subi ao s√≥t√£o, o c√īmodo proibido para as crian√ßas. Havia uma mesa, duas cadeiras, uma vela sobre um pires, quatro tigelas com corantes, uma colher com o cabo dobrado para cima, uma pena de ponta met√°lica e um l√°pis.

Minha Baba, descobriu a cesta, apanhou um dos ovos e sorriu, um daqueles sorrisos raros. As rugas em seu rosto pareciam até mais suaves.

- Baba, vamos começar?

- Calma, garotinha! Você sabe o que vamos fazer hoje?

- Claro, vamos fazer pêssankas?

- √Č mais do que isto. Vamos fazer hist√≥ria! N√£o √© todo mundo que consegue, que tem o dom de escrever assim. A palavra p√™ssanka vem de escrever em ucraniano: pysaty. Sei que voc√™ conseguir√° manter a tradi√ß√£o em nossa fam√≠lia, em nossa comunidade.

Minha baba voltou a sorrir e começou a discorrer sobre a história, sobre a tradição das pêssankas. Eu estava ansiosa para começar a desenhar e colorir, mas entendi que seria importante conhece-las.

- As pêssankas são feitas pelo nosso povo há muitos milênios como forma de celebrar a primavera, quando o Sol volta a surgir e com ele a vida renasce com o desabrochar das flores, na volta dos animais que hibernam. Quando nosso povo se tornou Cristão, a tradição foi mantida e o renascimento foi associado à ressureição de Cristo, fonte de vida e salvação.

- Mas Baba, a Páscoa não é sempre quando se aproxima o Outono e depois o Inverno?

- Aqui no Brasil, sim. Mas na nossa terra que fica na metade de cima do planeta ela coincide com o começo da Primavera.

Minha Baba era professora prim√°ria na Ucr√Ęnia. Sabia de muita coisa e continuou a ensinar aqui no novo mundo.

- Cada p√™ssanka √© um desejo de felicidade ¬Ė continuou minha av√≥.

- Como se escolhem as cores da p√™ssanka ¬Ė perguntei.

- Cada cor, cada desenho tem um significado.

- Eu prefiro o amarelo ¬Ė despejei.

- √Č pr√≥prio da sua idade. O amarelo simboliza a luz, a pureza, fala de juventude, felicidade, colheita, hospitalidade, sabedoria, amor e benevol√™ncia. O vermelho tamb√©m √© indicado para os jovens, para as crian√ßas. √Č uma cor positiva, tamb√©m simboliza a paix√£o e o amor.

- Qual a sua cor preferida, Baba?

- Eu gosto de todas. Mas vou arriscar que gosto do roxo.

- Eu acho o roxo triste ¬Ė disse eu inconformada.

- Quando tiver a minha idade vai saber que para se passar pelas adversidades da vida √© preciso f√©, paci√™ncia e confian√ßa. √Č isto que esta cor simboliza.

- O que representam as outras cores?

- O preto, o eterno. O branco, do seu apelido, a pureza. O laranja, o que mais tivemos que ter em toda a nossa hist√≥ria, a resist√™ncia. Preciso falar disso para voc√™. N√≥s os ucranianos passamos por muitas dificuldades, sobrevivemos a muitas guerras e invas√Ķes. Falaremos disso mais adiante.

- Que cores mais se usam?

- O verde representa a renovação, a cor das folhas na Primavera. O marrom a mãe terra, de onde tudo vem e para onde tudo vai depois do fim. O azul retrata a vida e a verdade.

- Baba, por que os ucranianos vieram para o Brasil?

- Curiosa, n√£o? Eu disse que falaria disso depois.

- A senhora disse que quando fazemos pêssankas, escrevemos. Preciso saber o que escrever na minha primeira pêssanka, falar um pouco da história do nosso povo.

- Você é muito esperta. Sempre digo que quem faz uma pêssanka escreve como quem escreve um conto, um livro ou faz uma poesia.

- Quantos anos a senhora tinha quando veio para o Brasil.

- Eu tinha 31 anos, foi em 1897.

- Por que vieram?

- Na nossa regi√£o, na Gal√≠cia, viv√≠amos da agricultura. O que plant√°vamos servia de alimento para a nossa gente e para todo o povo das regi√Ķes mais frias. Nossa terra era preta como esta daqui e muito f√©rtil. Por isso, fomos dominados e ocupados por muitas vezes. A Ucr√Ęnia faz fronteiras com muitos pa√≠ses, √© como um corredor entre a √Āsia e a Europa. Assim desperta a cobi√ßa de muitos povos. Est√°vamos passando por muitas dificuldades. Apareceram por l√° algumas pessoas dizendo que na Am√©rica havia muita riqueza, extensas terras, f√©rteis como as nossas e que seriam dadas de gra√ßa para quem aceitasse imigrar. Pensamos em vir para c√°, juntar dinheiro e depois voltar para a Ucr√Ęnia.

- Como os Davydenko?

- Sim, como eles. Mas eles escreveram que j√° se arrependeram e querem uma oportunidade para voltar para c√°. L√°, no pa√≠s vizinho, est√° acontecendo o que eles chamam de Revolu√ß√£o Russa e agora os russos tiram ainda mais do que o nosso povo produz para ser levado para a R√ļssia. Est√° bem mais dif√≠cil sair de l√°.

- E como era o lugar onde viviam?

- Morávamos numa aldeia próxima do Rio Dnieper, numa região repleta de colinas. Lembra um pouco esta região aqui do Paraná. Temos o Iguaçu, mas sinto saudade do Dnieper.

- Tem alguma coisa que n√£o gostava l√°?

- Não posso dizer que não gostava, pois estava acostumada. Mas o frio em janeiro era insuportável. Só com muita lenha e vodca, como diz o seu Dido.

Minha av√≥ mudou as fei√ß√Ķes, pareceu triste depois de mencionar a bebida. Meu Dido, era uma pessoa incr√≠vel, parecia outro quando bebia.

- √Č uma boa desculpa para beber, n√£o √©, Baba?

- Depois que chegamos aqui, nesta terra, os homens encontraram essa nova desculpa para continuar bebendo. Tivemos muitos desgostos, passamos fome e a bebida ajudou a destruir muitas famílias. Trocamos a vodca pela cachaça. Esquecemos do nosso Deus e dizíamos que ele havia nos esquecido aqui neste mundo. Até as mulheres se entregaram a bebida. Os bodegueiros se aproveitaram e quase todo mundo se endividou. Durante muito tempo trabalhamos mais para pagar nossas cadernetas do que para alimentar nossas crianças.

- Sinto muito!

- Mas vamos falar de renovação, de esperança, voltemos para as nossas pêssankas!

- Claro! O que vamos desenhar?

- Nas p√™ssankas, nossas mensagens s√£o transmitidas, nossas hist√≥rias s√£o contadas atrav√©s de s√≠mbolos. A maioria vem da antiguidade, das nossas mais remotas tradi√ß√Ķes. Veja, fiz alguns desenhos no papel para voc√™ conhecer e treinar em suas p√™ssankas.

Segurei a folha de papel como quem segura um tesouro. Minha v√≥ apontava cada uma das figuras e explicava o seu significado. Os animais como o cavalo, o veado ou o carneiro representavam a riqueza e a boa sa√ļde; o peixe, o Cristianismo; o galo, a fertilidade; as flores, o amor e a felicidade; os ramos, a juventude e o vigor; o trigo, a fartura; a escada ou o rastelo, o casamento; o tri√Ęngulo, a Sant√≠ssima Trindade; a estrela ou o Sol, a longevidade; a Cruz, a imortalidade; e as linhas, a eternidade e prote√ß√£o.

- Baba, por que este quadradinho est√° em branco?

- Menina esperta! Este é para você escolher algo que seja a sua marca, algo que represente você, a sua assinatura. Vá pensando! Daqui a pouquinho, se quiser, a colocará na sua primeira pêssanka.

- N√£o preciso pensar, j√° sei!

- √Č mesmo? E o que ser√°?

- Um pinh√£o. Um pinh√£o com duas cabecinhas.

- E o que significa isso para você?

- A oportunidade do recomeço, numa terra distante. As cabecinhas: uma minha e outra sua, como agradecimento pelos seus ensinamentos. Não só agora pela preparação das pêssankas, mas por tudo que tenho aprendido com a senhora.
Minha Baba manteve a express√£o firme, mas pude perceber uma pequena l√°grima que se formou no canto do seu olho esquerdo.

- Muito bem! Agora vamos aprender como usar as cores.

- Porque n√£o h√° nenhum pote com a cor branca?

- O branco das p√™ssankas vem da cor do ovo. Por isso voc√™ os deixou bem limpinhos, p√īs de molho no vinagre.

- Mas Baba, como ele n√£o ser√° tingido quando a senhora mergulhar no corante?

- As abelhas garantirão que isto não aconteça?

- Abelhas? E o que elas têm a ver com as pêssankas? Por acaso existem abelhas pintoras?

- Não, querida. Elas produzem a cera que vamos usar nas pêssankas. A cera também guarda um belo segredo, que só é revelado quando a pêssanka está pronta. Você já vai descobrir como se usa a cera.

- J√° estou muito curiosa! E as outras cores, como s√£o feitas?

- Cada um tem o seu modo, os seus ingredientes para prepara-las. Esta vermelha pode ser de alguma madeira. Eu uso o que tenho na mão, que são as beterrabas. Para o amarelo eu uso cascas de cebola. Para o verde, centeio ou trigo. Na cor violeta eu utilizo sementes de girassol e para o preto, cinzas ou carvão. Raízes também pode servir de base para os corantes.

- Mas continuo curiosa com o branco!

- Vamos acabar com a sua ansiedade. Me alcance o l√°pis! Vamos dividir o ovo em quatro partes, fazendo uma linha vertical e uma horizontal, exatamente nas metades. √Č preciso simetria, para garantir a harmonia dos desenhos.

- Simetria? O que é simetria?

- Como vou explicar? Voc√™ lembra como fica a lagoa de peixes do seu Dido, num dia claro, quando a imagem das √°rvores e das constru√ß√Ķes fica refletida na linha da √°gua?

- Sim, como se fosse uma imagem no espelho, rebatida para baixo.

- As imagens são idênticas, só que opostas. Isto é simetria. Claro que num desenho feito à mão não ficará perfeita, mas buscaremos o máximo de perfeição. Este primeiro desenho será como um rascunho.

- Vamos fazer uma flor?

- Sim, ent√£o vamos escolher quais partes do nosso desenho queremos em branco.

- A senhora n√£o vai desenhar todos os detalhes?

- Tudo a seu tempo.

Como eu ainda não tinha ideia de como tudo funcionava, minha avó me fazia perguntas e eu respondia, assim ela fez mais alguns traços no ovo.

- Branca, acenda a vela!

Ela aqueceu a ponta da pena na chama da vela, e encheu-a com um pouco de cera de abelha que com o calor ficou enegrecida. Depois começou a sobrepor os traços que havia feito.

- Está vendo? As abelhas começam a nos ajudar com as cores. Quando eu sobreponho o traço com a cera, o que está embaixo dela, fica com a cor preservada. No caso, a cor natural do ovo, o branco. Quando eu mergulhar o ovo no corante, tudo ficará da cor escolhida, menos o que está abaixo da cobertura de cera.

- Obrigado abelhinhas! ¬Ė disse eu sorrindo.

Minha av√≥ escolheu o primeiro banho de corante na cor amarela, pegou a colher com o cabo dobrado para cima, equilibrou o ovo nela e o mergulhou na mistura. Depois desenhou novos detalhes: as p√©talas da flor, o contorno de dois tri√Ęngulos e algumas linhas. Ela repetiu o processo, usando as demais cores, at√© que o ovo ficou todo coberto e escurecido pela aplica√ß√£o da cera de abelha.

- Baba, acho que alguma coisa deu errado, a pêssanka não ficou colorida como as que a senhora entrega no Domingo de Páscoa!

- Lembra que eu lhe disse que a pêssanka guarda um segredo?

- Sim, me lembro.

- Pois bem! Quando o pintor faz seu quadro, o escritor coloca um ponto final no seu texto, o m√ļsico conclui sua nova can√ß√£o, por exemplo, eles param e admiram sua obra, apreciando a pintura por alguns instantes, lendo o texto em voz alta, ou tocando sua m√ļsica. Quem faz uma p√™ssanka imagina um resultado final, mas ele ainda n√£o conhece como realmente ficou. Eu lhe garanto que quem faz uma p√™ssanka sempre se surpreende ao final.

- Esta é a revelação?

- Exatamente, o processo que faremos a seguir tem este nome: revelação. Mas bem que poderia ser chamado de mágica da pêssanka.

Minha avó apanhou um pedaço de pano e aproximou o ovo da vela.

- Baba, a senhora vai queimar o ovo!

- N√£o vou n√£o. N√£o se pode colocar o ovo sobre a chama, sen√£o escurece.

Ela aproximava o ovo, o suficiente para amolecer a cera de uma pequena regi√£o e esfregava o paninho, limpando a regi√£o aquecida. As cores come√ßavam a mostrar toda a sua intensidade e brilho. Ela repetiu as a√ß√Ķes at√© que o ovo se revelou colorido, belo, enigm√°tico para mim. L√° estava a imagem de um belo girassol, centralizado nas faces opostas do ovo, v√°rias linhas de prote√ß√£o, com tri√Ęngulos e cruzes perfeitamente harmonizados. Formaram-se belas rendas tamb√©m, como se fossem bordadas sobre a superf√≠cie do ovo. O branco, o amarelo, o laranja, o verde e o preto formaram um belo arranjo de cores.

Eu não havia percebido, mas se passaram pelo menos duas horas desde que começamos a fazer a pêssanka.

- Certo, aqui est√°. ¬Ė disse minha av√≥, colocando a p√™ssanka em minhas m√£os.

- √Č linda! ¬Ė disse eu segurando a p√™ssanka como uma joia.

- Tem que tomar cuidado para não quebrar. Esta pêssanka é como um amuleto para a boa sorte. E para que sirva como tal, não se retira o que há dentro.

- Posso fazer uma sozinha agora?

- Eu preciso cuidar do almoço. Teremos visita, tenho que terminar o borscht e os perohes.

Minha Baba abriu um ba√ļ e tirou de dentro uma caixa de madeira. Nela havia tudo o que eu precisava para fazer as minhas pr√≥prias p√™ssankas, inclusive alguns ingredientes para que eu testasse minhas cores.

- Obrigada, Baba! Terei as minhas próprias pêssankas nesta Páscoa!

- Cuidado com a vela para n√£o colocar fogo na casa!
Dei um beijo na minha Baba e j√° ia saindo quando ela me segurou pelo ombro:

- Volte depois da P√°scoa, vou lhe ensinar como fazer alguns bordados.

- Jura! Você é a melhor avó do mundo!

Voltei para casa muito feliz. Não pude trabalhar nas pêssankas no mesmo dia, pois tinha muitas tarefas para cumprir. Passei a noite imaginando como seriam as minhas pêssankas, construí-as mentalmente. Quando me dei conta o dia já estava amanhecendo. Pulei antes da cama, precisava ganhar tempo para escrever as minhas histórias.

A Páscoa não demorou a chegar. Depois do jejum na sexta-feira, no sábado a família se reuniu para preparar as comidas que seriam abençoadas na Missa. À noite fomos para a velha igreja de madeira, construída em estilo bizantino e pintada de verde, Cada família levou sua cesta com a com a pascha, a babka, carne de porco, linguiça, requeijão, manteiga, sal, krim, ovos, e é claro: as pêssankas.

Na manhã do Domingo de Páscoa, antes de ir até a Igreja, nos reunimos para o café da manhã na casa da Baba e do Dido. Era um aperto só. Todos se cumprimentavam. Minha Baba começou a entregar as pêssankas. Esperei que ela fizesse a entrega a todos e depois me aproximei dela.

- Hr√©stos Voskr√©s ¬Ė Cristo ressuscitou! ¬Ė Disse eu para minha Baba.

- Vo√≠stenu Voskr√©s - Em verdade ressuscitou! ¬Ė respondeu minha Baba.

Entreguei uma pêssanka para a minha avó. Desta vez ela não conseguiu segurar as lágrimas.

- Ficou linda, Branca! Me explica o que representam os desenhos?

- Não é preciso, Baba. A história que ela conta, fala para o seu coração, assim, só a senhora compreenderá. Só vou falar uma coisa, melhor, duas: o Sol representa a longevidade, para os muitos anos que espero conviver com a senhora. Lembra do girassol que pintou na pêssanka que me entregou, quando me ensinou a fazê-las? Pois eu sou o girassol que busca a luz do Sol a cada dia e, a senhora é este meu Sol! A segunda, não sei se percebeu, bem aqui em baixo, é o nosso pinhãozinho!

Amanh√£ completarei meus 110 anos de idade, n√£o lembro muita coisa dos √ļltimos anos, do que aconteceu no dia de hoje, mas tenho viva as lembran√ßas da minha inf√Ęncia e especialmente daquela P√°scoa. Vivi muito, n√£o precisava tanto. Aqueles que mais amei j√° se foram. Foi uma boa vida.
Assim como a minha Baba e a minha mãe me ensinaram tanta coisa, procurei dividir o que aprendi, ensinando outras pessoas. Meus dedos não respondem mais, minhas pêssankas tem linhas imperfeitas, mas não consigo parar de fazê-las, de contar as minhas histórias.

Estou esperando pela garotinha que me sorri todos os dias quando volta da escola. Ela se parece comigo quando pequena. Eu também tinha olhos grandes e azuis, não estes turvados pelo tempo.

- Venha cá garotinha, tenho algo para você! - Chamei-a por sobre a cerca.

- Ol√°! Como vai a senhora?

- Fico melhor quando vejo o seu sorriso!

- Todos os dias eu passo na volta da escola e ainda n√£o sei o seu nome.

- Meu nome é Bronislava, mas me chamam de Branca, desde pequena.

- Muito prazer, o meu nome é Sofia.

- Sofia, posso chama-la de Zocha?

- Pode, mas por quê?

- Sofia era o nome da minha Baba, mas todos a chamavam de Zocha.

- Que legal, Dona Branca!

- Voc√™ gosta de bordados? ¬Ė perguntei.

- Eu adoro, também estou aprendendo a costurar.

- Então entre um pouquinho, tenho algo para você, não vou lhe atrasar muito.

Abri o pequeno ba√ļ que tinha comigo e retirei de l√° uma toalha bordada. Procurei mant√™-la o mais integra poss√≠vel ao longo desses anos. As formas geom√©tricas constru√≠das no bordado pela minha av√≥ e a combina√ß√£o de cores at√© hoje me emocionam, tanto quanto as p√™ssankas. Entreguei para a garotinha, de uma Zocha para outra Sofia. Num pequeno estojo de madeira tamb√©m lhe ofereci uma de minhas p√™ssankas preferidas. Assim, quando ela passar novamente, lembrarei da do√ßura escondida atr√°s do rosto sofrido de minha Baba.

Adnelson Campos
14/06/2016

 

 

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