Jussara Lucena, escritora

Textos

Milagres

Os últimos dias no trabalho haviam sido difíceis, a sexta-feira parecia muito distante, mas chegou. Leo e Pedro correram para o bar. Nunca um chope descia tão suavemente pela garganta. Combinaram que seria proibido falar sobre trabalho naquela noite. Estavam muito animados, recordando algumas passagens da infância e adolescência. Os dois cresceram no mesmo bairro e durante um bom tempo frequentaram a mesma escola.

O bar era muito interessante e agradável. Imitava algumas daquelas redes americanas que preenchiam a parede com vários objetos ligados a música. No centro do salão, pendurado no teto, um fusca estilizado compunha a atmosfera. Apesar de bastante frequentado e da música sempre presente, as mesas eram bem distribuídas e permitiam conversas e até um pouco de sossego para quem quisesse.

Acompanhado pelo atendente, perceberam a entrada de um colega da empresa. Estava afastado do trabalho já há algum tempo.

- Não entendo esse cara, é inteligente, poderia ter uma bela carreira, mas não consegue trabalhar – observou Leo.

- Dizem que ele sofre de Síndrome do Pânico. É uma doença silenciosa – completou Pedro.

- Tem gente que duvida. Dizem que ele nunca gostou de trabalhar, prefere gastar o dinheiro que lhe resta e ainda mais um pouco da família – argumentou Leo.

- Não há como saber ao certo. Ele já passou pela mão de vários especialistas e ninguém dá jeito.
João preferiu sentar-se no balcão. Pediu uma bebida e curvou-se sobre o copo. Leo levava o copo à boca quando percebeu, do outro lado do balcão, numa mesa, estrategicamente montada para o sossego, alguém bastante conhecido.

- Pedro, Olha! Aquele sentado naquela mesa, próximo da escada. Não é Jesus Cristo?

- Você bebeu demais!

- É apenas o meu segundo copo! Olhe com atenção, é Jesus Cristo sim!

- Deixa de bobagens, Leo! Vamos falar de coisas reais, me conta como foi o jogo do seu time!

- É ele sim. Olha o cabelo até o ombro, a barba bem desenhada. Veja o detalhe daquele nariz. Eu vou até lá! Espera aí!

Leo hesitou, quase voltou, ganhou coragem e abordou o sujeito.

- Olá Tudo bem?

- Olá! – Disse o homem sem virar o rosto, voltado para o copo.

- Eu conheço você! Posso chamar de você?

- Me conhece? De onde?

- Tenho visto os seus retratos ao longo de toda a minha vida. É claro que cada um pinta ou desenha o seu rosto do seu jeito, mas sempre algo em comum. Você é Jesus Cristo!

- Acho que você bebeu demais.

- Eu sei que você é Jesus Cristo! Pode ficar tranquilo, não contarei para ninguém. Posso me sentar?

- Por favor.

- Minha nossa! É você, o Senhor mesmo?

O homem, contrariado, permaneceu em silêncio por alguns segundos, enquanto Leo congelava um sorriso aberto no rosto. Percebendo que Leo não desistiria facilmente, pronunciou-se:

- Está bem, meu filho. Eu sou Jesus Cristo. Hoje estou num dia de folga, cuidar de toda a humanidade não é tarefa fácil e eu também preciso relaxar. Aqui eles servem um bom coquetel a base de frutas e uma ótima comida. Há gente de todos os estilos, pensei que poderia passar despercebido.

- Encontra-lo aqui de calça jeans e camiseta. Mesmo que eu contasse, não acreditariam. Se eu insistisse, com certeza pensariam em me internar para tratamento – disse Leo.

- Leo, caso outros percebam, não poderei voltar aqui. Peço que guarde segredo.

- Entendo, mas, será que eu poderia fazer um pedido? É algo simples comparado aos seus milagres. Tenho um problema de coluna, o nervo ciático não me dá trégua.

- Está bem! – disse o Senhor tocando as costas do sujeito, eliminado a dor.

Leo voltou feliz da vida para sua mesa.

- Está vendo rapaz. Era Jesus Cristo mesmo. Ele curou a minha coluna. Está duvidando? Veja. Você acha que eu conseguiria tocar os pés se não estivesse curado.

Pedro engoliu o líquido do copo que bebia, respirou fundo e rapidamente foi até a mesa do Salvador. Não pediu licença, sentou-se e despejou:

- Olá Jesus Cristo!

- Seu amigo me prometeu que não comentaria nada com ninguém!

- É que nós somos muito chegados, amigos de infância e eu também tenho um probleminha...

- Já sei, são as hemorroidas. Vá meu filho, siga em paz! – o Senhor tocou o traseiro do homem que voltou à mesa onde estava o amigo.

- Você tinha razão. Estou com o escapamento novinho em folha. Garçom me traz uma porção de Buffalo Wings, com bastante pimenta, por favor! – gritou Pedro.

- Mal se curou já quer estragar de novo? – riu Leo.

- Hoje é nosso dia de sorte. Só falta aquelas duas gatinhas do RH aparecerem por aqui.

- Mesmo assim precisaríamos de mais um milagre para que elas sentassem na nossa mesa e concordassem ao menos com um bate-papo – lamentou Leo.

- Pena que pedi a cura das hemorroidas. Quem sabe o rosto de um galã de novela não fosse melhor! – disse Pedro, arrependido.

- Falando novamente em milagres, poderíamos fazer uma boa ação hoje. Será que se nós falássemos com o João ele não pediria a cura para o Redentor.

- Sei lá, Leo, prometemos que não iríamos contar para ninguém.

- Ajudar o próximo não é pecado. Ele entenderia.
Foram até a mesa do sujeito, que os recebeu mal.
- Não me interessa! – disse João, que continuou bebendo.

Meio sem jeito, os dois amigos retornaram para o seu canto. Voltaram a descontrair-se em seguida, porém, não deixavam de dar umas olhadelas para o Homem de Nazaré, que em certo momento os encarou com olhar de repreensão.

O Salvador, que já estava no seu terceiro copo de suco e segundo sanduíche, estava intrigado. João ainda não o procurara. Esperou mais algum tempo, não se conteve e abordou o sujeito. Olhou de anto de olho e percebeu, na outra mesa, o movimento dos dois amigos cutucaram-se e passaram a observar a cena.

- Boa noite! – Jesus Cristo cumprimentou João que permaneceu indiferente.

- A noite está boa! Espero que ela continue assim.

- Você sabe quem eu sou!

- Sei sim, O Leo e Pedro me disseram.

- Por que não me procurou? Eu posso lhe ajudar – disse Cristo levando a mão em direção à cabeça de João.

- Sai daí Mão Santa! Eu ainda tenho seis meses de auxílio doença.

Desapontado, o Homem foi até a mesa dos dois amigos.

- Posso me sentar?

- Claro! – responderam os dois em coro.

- Pela sua expressão, decepcionou-se na conversa com o João – afirmou Leo.

- Confesso que nesses milênios de vida, depois de tantos pedidos diários de um milagre, me surpreendi com a reação do seu amigo João. Eu ali, na frente dele e ouço uma recusa. Não compreendo. Poço experimentar um pouco do seu copo? – perguntou o Salvador desapontado.

- A doença dele deve ser bem séria mesmo – sugeriu Pedro.

- Acredito que não seja uma doença e sim um estado de espírito. Seu amigo está cometendo um pecado, daqueles que leva a morte.

- Sério, e o que você acha que é Senhor?

- Desrespeitar o filho de Deus! – disse Pedro.

- Não, é preguiça mesmo. – disse Jesus inconsolável.

Os dois amigos entreolharam-se surpresos.

- Este chope está bom mesmo. É uma bela tentação. Preciso ir. Meu dever me espera – disse Cristo já em pé.

- Apareça! – sugeriu Leo.

- Antes de sair, me digam uma coisa. Como é o nome das duas gatinhas do RH mesmo?

- Priscila e Joana - respondeu Pedro, curioso com a pergunta.

- Por acaso são aquelas duas jovens passando agora pela porta? – sorriu Jesus.


Texto presente na Antologia "Humor de cada dia" da Editora Perse em julho de 2017.

Adnelson Campos
08/08/2017

 

 

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