Jussara Lucena, escritora

Textos

Nas trilhas dos carroções

Na janela do sótão da casa da minha avó, por detrás das cortinas eu observava o encontro dos carroceiros que formavam um grande círculo com suas carroças em frente a bodega do Seu Frederico. Eles tratavam os quase duzentos animais que usavam para puxar as cargas de madeira ou erva-mate. Eu sempre adorei cavalos e sonhava montar um e sair mundo afora, ou quem sabe viajar num carroção como aqueles que cruzavam a estrada grande em direção a Curitiba ou voltando para Guarapuava. Só havia dois probleminhas: eu era uma garota de dez anos e somente os colonos alemães e italianos possuíam tais carroções.
Meu pai trabalhava para o seu Fritz – o nome dele era Johann, mas todos o chamavam carinhosamente de Fritz – um colono alemão que se esforçava para falar o português. Ele era casado com a dona Emília, uma senhora filha de italianos, alguns anos mais nova que ele. Eles não tinham filhos e assim, algumas vezes vinham nos visitar e nos davam pequenas lembranças.
Uma dessas visitas aconteceu num dia de Natal. Eu sempre soube que no dia de Natal se comemorava o nascimento de Jesus e que era um dia muito importante para os cristãos do mundo todo, mas seu Fritz nos contou algo diferente naquele dia 25 de dezembro de 1925, uma história contada pelos alemães e por pessoas de outros países europeus também. Ele confirmou a importância do Cristo para a humanidade, porém disse que em sua terra eles tinham mais alguns costumes e crenças no Natal.
Falou que na noite da véspera do Natal, um bom velhinho levava presentes até as casas para que fossem entregues às crianças. Na Europa, havia várias versões sobre a origem do bom homem. Alguns diziam que o foi um bispo, depois santo, chamado Nicolau que iniciou a tradição, outros diziam que foi um outro Nicolau, um menino que perdeu os pais e a irmã muito cedo que começou a tradição fabricando presentes para a irmã e entregando na véspera de Natal. O tempo foi passando e várias histórias surgiram para explicar sua origem.
– Em cada lugar ele tem um nome. Na minha terra ele se chama Weihnachtsmann, nos Estados Unidos é Santa Claus, em Portugal é Pai Natal. Já vi chamarem ele aqui no Brasil de Papai Noel. – dizia o Seu Fritz.
– E porque ele ainda não chegou aqui? – perguntei aborrecida.
– Ele ainda está aprendendo os caminhos, minha pequena Clara. Sua terra é um lugar muito distante. Eu tive que viajar muitos e muitos dias num navio e depois por váiras estradas para chegar aqui.
– Ele viaja de navio? – perguntei.
– Não, ele tem um trenó puxado por Renas.
Dona Emília confirmava tudo com gestos de cabeça e eu meus dois irmãos ouvíamos de olhos arregalados.
– Rena é um animal parecido com cavalo ou boi? – perguntou meu irmão Pedro.
– Não, rena é uma espécie de cervo, um veado, só que maior que os que temos por aqui no Paraná, com grandes chifres, chamados galhadas, por se parecerem com o galho de uma árvore.
– Vejam, eu trouxe um livro que conta uma versão da história e tem alguns desenhos também. – completou ele.
– E por que estas árvores estão enfeitadas? – perguntei.
– É outro costume de vários povos da Europa. Muitos associam a Árvore de Natal e seu formato triangular à Santíssima Trindade. As folhas perenes à eternidade e Jesus.
Eu olhava espantada para as figuras coloridas no livro de capa dura. Eu nunca tinha visto um livro igual aquele. Não entendíamos uma só palavra, estava tudo escrito em alemão. Seu Fritz disse que comprara o livro antes de sair da Alemanha e pretendia dá-lo ao seu filho, quando tivesse um, porém, ele nunca veio.
Naquele dia seu Fritz nos deu o livro de presente. Durante a noite eu folheei-o o quanto pude, até o último toquinho da vela. Dormi imaginando as aventuras do velhinho vestido com o casaco verde de lã e peles, passeando pelos ares com suas oito renas. Fiquei imaginando ele sobrevoando o nosso país, a minha cidade. O Natal estava acabando, deitei e cansada peguei no sono.
Ouvi estalos dos chicotes e o tinir de cincerros. Estranhei. Um carroção viajando no dia de Natal? Corri até a janela, não havia nada na rua, não ouvi o ranger de rodas também. Apenas ouvi os gritos: “vamos Trovão, adiante Relâmpago”. Os sons vinham do céu, esforcei-me para enxergar em meio à escuridão. Lá no alto, no horizonte, pude ver um carroção, cheio de barricas, puxado por um homem de gorro na cabeça, cabelos grisalhos. Em pé incentivava seus animais que sem asas voavam sobre as montanhas do meu lugar.
Corri chamar meus irmãos que sonolentos pularam da cama. Fui motivo de chacotas por uns bons dias. Todos achavam que eu estava sonhando depois de tanto ver as gravuras do livro presenteado pelo Seu Fritz. Eu tinha certeza da minha visão. Esperei pelo ano seguinte, o velhinho havia chegado atrasado este ano, ou quem sabe usara o Seu Fritz para nos presentear. Porém o meu maior presente não foi o livro, mas sim saber que havia gente boa neste mundo e que queria fazer o bem, principalmente para as crianças.
Naquele meu décimo primeiro ano de vida eu sonhei com o Natal seguinte. Cada vez que um carroção atravessava a cidade durante a noite eu corria até a janela quem sabe sonhando que o Natal tivesse chegado mais cedo. Confidenciei a uma amiga da escola que eu queria muito ganhar um presente no Natal: um cavalinho. Eu sabia que o Papai Noel trazia brinquedos, mas eu queria o meu primeiro cavalinho. Seria o primeiro animal de uma parelha de cavalos que puxaria o meu carroção. Seriam oito, como nos carroções dos imigrantes, o mesmo número de renas do Papai Noel.
Lembro quando minha amiga Sofia questionou:
– Clara, para que você quer um carroção?
– Eu sempre me imagino saindo por aí, viajando, dormindo com as estrelas, comendo à beira do fogo, ouvindo histórias de assombração na roda de chimarrão. Eu ouvi tantos causos dos carroceiros que eu preciso experimentar um pouco dessas aventuras.
– Impossível! Não existem carroceiras. É perigoso para uma mulher, quem dirá para uma menina.
– Eu não iria sozinha. Estou pensando em pedir ao meu irmão José que faça uma dupla comigo.
– Sonhar não custa nada, mas acho muito difícil – disse Sofia.
Eu queria muito falar com o Papai Noel. Não sabia como. Meu irmão me deu uma ideia: “escreva pra ele!”. Foi o que eu fiz. Não sabia o endereço, assim só coloquei o nome dele na frente do envelope e o meu endereço no remetente, comprei um selo e coloquei na caixa do correio que seguia uma vez por semana, também transportado por um carroção.
O ano foi chegando ao final e a minha ansiedade foi aumentando. Nos dias que antecediam o Natal e o Ano Novo todas as famílias procuravam deixar as casas mais limpas, mais bonitas para as festas. O jardim com a grama cortada e arbustos podados, as paredes pintadas, o chão bem lavado e encerado ente outras arrumações.
Naquele ano várias famílias começaram a enfeitar suas árvores de Natal depois que eu dei a ideia ao padre de colocar uma ao lado do presépio na igreja. Escolhemos um pinheiro araucária, já que não tínhamos nenhuma árvore parecida com os pinheiros das figuras dos livros. O farmacêutico esgotou o seu estoque de algodão, usado para representar a neve nas nossas árvores. Meu pai dizia que as casas dos imigrantes tinham um formato diferente em seu telhado porque na terra deles havia muita neve no inverno. Meu avô dizia que aqui já havia nevado também, porém eu nunca vi.
Quando o dia 24 de dezembro chegou eu pulei cedo da cama e mal podia esperar pela noite. Depois do jantar fomos até a praça e no coreto alguns músicos, com os instrumentos que mesmo construíram, tocavam músicas natalinas. Quando acabou a Missa do Galo, em frente ao presépio eu pedi ao menino Jesus recém-nascido que falasse com o Papai Noel para que atendesse ao meu pedido. Já na madrugada, no caminho de volta para casa, contemplávamos as estrelas, melhor, todos contemplavam as estrelas menos eu que procurava no céu o carroção do Papai Noel. Não o vi. Esforcei-me para ficar acordada, o cansaço me venceu. Dormi desapontada.
No outro dia acordei um pouco mais tarde e senti o cheiro do café vindo da cozinha. Havia uma voz diferente, com sotaque alemão. Eles falavam baixo pensando em não acordar as crianças. Identifiquei a voz: era do Seu Fritz, mas o que ele fazia tão cedo na minha casa? Lavei o rosto na bacia que estava no criado mudo ao lado da cama, fiz xixi no penico esmaltado que estava embaixo da cama, coloquei um vestido e desci.
Meu pai e minha mãe me abraçaram e me desejaram um Feliz Natal, sorrindo. Seu Fritz me deu um abraço também, desejou Boas Festas e me disse:
– Minha pequena, a noite foi muito agitada no meu sítio. Logo que o sino da igreja soou a meia noite e o dia do Menino Jesus chegou, eu olhei para o céu e vi uma estrela muito brilhante que pareceu pousar sobre o estábulo. Os cavalos ficaram agitados. Eu corri até lá e tive uma grande surpresa: no meio da palha havia um potrinho, alvo como a lua cheia. Ao lado dele estava este bilhetinho. Eu não conseguia entender muito bem, estava escrito em brasileiro e a Emília leu para mim. Dizia que este cavalinho foi entregue pelo bom Velhinho do Natal para uma garotinha chamada Clara. Falava também que ele havia gostado muito da cartinha. Foi um pouco difícil trazer um animalzinho desde o Polo Norte, mas ele que achou que você cuidaria bem dele.
– Não acredito! Minha carta chegou até ele! – disse eu.
Seu Fritz me ajudou a escolher um nome para ele: Zeus. Ele me disse que na mitologia grega era o nome do deus mais poderoso, lançador de raios.
Cuidei do potrinho como quem cuida de um bebê. Ele cresceu forte e obediente. Foi meu companheiro em algumas cavalgadas, porém, eu ainda não podia viajar com ele, era muito pequena. Assim, fiz a proposta para o meu irmão José que era muito bom marceneiro. Ele seria meu sócio na construção de um carroção. Meu irmão ainda duvidando que tivéssemos sucesso, aceitou.
Precisávamos de dinheiro para construí-lo e de outros sete animais para a nossa parelha. Começamos com uma pequena carroça, puxada por Zeus onde vendíamos lenha e fazíamos pequenos fretes. Compramos uma égua chamada Ventania. Junto com Zeus ela nos deu outros dois filhotes: Trovão e Relâmpago. Aumentamos o tamanho da nossa carroça, José começou a fabricar as barricas de imbuia. Quando completei meus quinze anos nós já tínhamos nosso carroção e nossos oito cavalos. Completaram a equipe a Bailarina, a Cigana, o Sabiá e o Coronel. Pena que seu Fritz não continuou por aqui para vê-los fortes e imponentes cavalgando por nossos Campos Gerais.
Trabalhamos o ano todo e com o dinheirinho que sobrava começamos a comprar alguns brinquedos, outros fazíamos nós mesmos, o Pedro ajudava. Na véspera de Natal enchemos nossas barricas com os pacotinhos e depois da Missa do Galo subimos os três no carroção, vestidos com nossas roupas verdes e gorro na cabeça e saímos pelas estradas do interior distribuindo, secretamente, os presentes.
Naquela noite de Natal, quando voltávamos para casa com o dia quase amanhecendo e atravessávamos a Ponte dos Papagaios, escutamos o som de chicotes e de cincerros, porém não se ouvia o rangido de rodas da carroça. Voltamos nossos olhares para o nascente, onde a estrela da manhã ainda brilhava com muita intensidade e pudemos ver o vulto de um carroção muito grande. O condutor gritava: “Vamos Corredora, ajude a Dançarina, avante Empinadora. Não me decepcionem Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. A noite está quase acabando e temos muito pela frente!”.
Acenamos para ele, e o cumprimento foi retribuído. Meus irmãos, surpresos me abraçaram e me agradeceram. Estávamos fazendo diferença para algumas pessoas e o choro foi inevitável.
Paramos para fazer um café. Quando fui apanhar o pote tive uma grande surpresa: havia três pacotes bem embrulhados e endereçados para os “três melhores ajudantes de Papai Noel”. Eu ganhei uma linda caixa de música que tocava uma doce canção de Natal. José uma nova caixa de ferramentas e Pedro uma navalha, para raspar os pelos que começavam a surgir em seu rosto.
O tempo passou, um fabricante de bebidas vestiu de vermelho o Papai Noel. Não usamos mais os carroções, o governo os proibiu em 1940. A estrada grande foi asfaltada e nela hoje trafegavam muitos caminhões. Na nossa memória de ex-carroceiros ficaram gravadas as emoções de um tempo em que éramos mais românticos e sensíveis. Felizes à nossa maneira e acreditávamos na magia do Natal.

Texto publicado na Coletânea Ecos de Natal da Eco Literário em dezembro de 2019

Adnelson Campos
13/08/2019

 

 

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