Jussara Lucena, escritora

Textos

Entre tipos, notícias e charutos (novo)

Em poucos minutos ele receberia o jornal. Se Batista cumprisse o combinado, Jones teria elementos para colocar mais lenha na fogueira da Corte. Esperava que o fizesse, senão teria dificuldade em justificar aos seus financiadores mais uma falta de sucesso. Restava esperar pela reação de Sua Majestade ao teor da matéria.
Ainda teria que dispensar muito dinheiro para compensar ao Batista e garantir a ele a autorização para abrir um jornal e concorrer com a Tipografia do Diário.
Jones e seus aliados precisavam enfraquecer a posição de Dom Pedro e garantir que ele voltasse de vez para Portugal. Os negócios da Inglaterra não podiam esperar. Dizia ele: “Este pedaço de fim de mundo não pode continuar independente”.
Ouviu batidas de palmas no portão. Era o entregador.
Dobrou o jornal e entrou. Pensou que boas notícias mereciam um bom acompanhamento. Gritou:
– Jovelina, me traga um café!
– Sim Mr. Jones, só um minuto.
Apressou-se a escrava a lhe trazer a bandeja com o bule, a xícara e alguns biscoitos amanteigados.
Acomodou-se na poltrona e estendeu o jornal. Em letras garrafais o título do jornal: O CLARÍN DIÁRIO. Logo abaixo um lema: BASEADOS APENAS EM FATOS.
No texto da capa a manchete: A QUEM INTERESSA CALAR A IMPRENSA?
Batista parecia ter sido econômico no texto, que mal preencheu a página. Restava avaliar o conteúdo.
Charles Jones leu atentamente o texto:
***
Nosso informativo tem uma edição especial neste sábado, 23 de novembro. Este ano de 1822 parece querer transformar definitivamente este nosso Brasil. É certo que desde 1808 desempenhamos um papel importante na história mundial e o Brasil cresceu a partir do momento em que assumiu o papel de protagonista na condução do mundo luso. Porém, nosso vínculo com Portugal precisa ser melhor avaliado. Há outras nações que parecem valorizar mais o potencial desta terra.
O Dia do Fico, a proclamação da Independência do Brasil em relação a Portugal, a Aclamação de Dom Pedro como Imperador do Brasil e agora as divergências entre Dom Pedro e a Maçonaria são exemplos deste turbilhão de fatos e acontecimentos que nós da imprensa temos o dever de retratar da forma mais realista possível.
Também é certo que se conhece a história sob o ponto de vista de quem a relata. Assim, a neutralidade é uma das virtudes de um tipógrafo. E alguns deles são e foram especiais.
Porém, vou deixar de lado a discussão dos laços com Portugal, para lamentar a morte de um homem que reunia virtudes capazes de manter a harmonia e a tranquilidade desta terra, a partir do Rio de Janeiro.
Hoje esqueceremos que somos divergentes em opinião e reservaremos boa parte das páginas deste nosso periódico para homenagear o grande Telles. Um intelectual que construiu a sua história particular num caminho de esforço e de desenvolvimento próprio. Tanto no Clarín Régio como nos trabalhos de sua tipografia.
É sabido que o controle da opinião pública é o ponto chave no domínio do poder, desde os primórdios e continuará sendo por muitos e muitos séculos. Assim, a imprensa é a mola propulsora dos acontecimentos por possuir a capacidade de intervir no imaginário, criando ou moldando símbolos e representações no contexto histórico.
Sobreviver neste meio, com pressões de quem governa e de quem é governado ou ainda daqueles que querem governar não é tarefa fácil. Entretanto, este homem simples e ao mesmo tempo diferenciado foi capaz de manter viva a chama da liberdade de expressão e do mais puro profissionalismo no retratar do dia-a-dia da Corte.
Ainda é cedo para se saber o real motivo da morte desse nosso amigo. Também é certo que neste meio não há como não causar incômodos, descontentamentos daqueles que nem sempre agem honesta e verdadeiramente. Portanto, aqueles que se atrevem a descrever a realidade dos fatos com tipos e tinta, sempre correm o risco de uma vida mais curta. Porém, este não é motivo para acovardamentos e sim para a persistência.
É sabido que muitos querem distância do nosso Dom Pedro, que o julgam como pobre de espírito e fraco para proteger as terras herdadas de seu pai, muito embora se julgue um soldado. Já, para outros, Sua Majestade é um bom homem e digno.
Telles acreditava, e boa parte da Corte também, nas virtudes do nosso ilustre governante, na sua bondade e respeitávamos sua opinião.
Queremos deixar claro aqui, que não são críticas a Pedro, nem posicionamento contrário aos censores régios, pessoas com as quais nosso colega Telles conseguia se relacionar muito bem e, com os quais, também mantemos o mais respeitoso relacionamento profissional. Destacamos que o decreto de liberdade de imprensa de março do ano passado foi uma demonstração cabal do quanto temos evoluído no registro da história e na imparcialidade de sua Majestade.
Assim, se não há censura por parte dos governantes, cabe censura daqueles nossos iguais, súditos da coroa? Portanto, queremos garantir a nossa liberdade de opinião. Portanto, para fortalecer a liberdade de imprensa, nada mais certo do que publicar nosso texto no Clarín Régio, dado a sua credibilidade junto a todos.
Acreditamos, sim, que Telles foi vítima por conta de sua sinceridade e honestidade. Nos cabe perguntar a quem na Corte interessava sua morte, tão brutalmente ocorrida.
Fala-se que nosso amigo Telles morreu por informar maltrato ocorrido em família. Recuso-me a imaginar que este fato tenha ocorrido. O sujeito encontra-se preso, talvez por ser brasileiro e acusado por um influente português.
Somos todos iguais: brasileiros, portugueses, ingleses. Estes últimos parecem os mais preocupados em que andemos pelas próprias pernas.
Não queremos deixar de lado o ponto mais importante desta nota: a partida inesperada e violenta de Telles. Apuração do crime, é o mínimo que Pedro pode oferecer a quem lhe foi fiel, da mesma forma que foi a Dom João.
Me angustia pensar que ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro eu olhe para as pessoas e não saiba em quem confiar. Porém, como Teles, não nos omitiremos.
***
Jones chegou à conclusão que se fosse ele a escrever o texto, seria mais duro, porém já era o suficiente para causar bastante desconforto para Pedro e sua Corte. Seus financiadores, se não satisfeitos totalmente, não se negariam a transferir-lhe Libras suficientes para a continuidade dos negócios. Para ele, viver no Brasil era um grande sacrifício que só o dinheiro podia amenizar.
Jornal debaixo do braço, pediu a carruagem para a reunião com seus sócios. Estava ansioso para ler o texto em voz alta para eles. Levou consigo uma caixa de charutos para a comemoração, para Jones algumas das poucas coisas boas da América.
Quando chegou, estranhou o fato de Batista estar lá também. Cabeça baixa, o jornalista mal o cumprimentou.
– Bom dia, meu amigo! Obrigado por cumprir o combinado! Eu seria um pouco mais contundente, mas ficou razoável!
– Sabe porque estamos aqui? – questionou Batista após responder ao cumprimento com um abano de cabeça.
– Fui eu quem marcou a reunião ontem à noite, mas não o chamei para a conversa.
– Estranho. O brutamontes que está do lado de fora praticamente me obrigou a subir na charrete – Reclamou Batista.
– Onde estão os outros?
– Lá na biblioteca, pediram para não serem incomodados. Esperariam pela sua chegada.
– Vamos ver o que está acontecendo.
– Espere, pediram que aguarde aqui fora também. Trouxe o dinheiro?
– Eu nem sabia que o encontraria aqui!
– Tem certeza que era isto que eles queriam? Não me pareciam nada amistosos. Falavam somente na sua língua natal.
– Calma! Fez o seu trabalho. Não teriam motivos para descontentamento.
O tempo passava e os dois comparsas estavam muito ansiosos. Andavam de um lado ao outro. Nem um café lhes foi servido.
Aborrecido, Jones bateu na porta da biblioteca. Lá dentro, quatro sujeitos de cara fechada o receberam.
– Bom dia senhores! O que acontece para que não dividam suas preocupações comigo? Afinal, fui eu quem marquei o encontro. Trouxe até uma caixa de charutos para comemorar!
– Quem mais sabe sobre a encomenda da nota no jornal? – Perguntou Simpson.
– Apenas nós cinco e o sujeito que está lá fora.
– Precisamos de algo mais forte para agitar ainda mais este pedaço de mundo.
– Claro! Vamos pensar juntos. Posso fazer qualquer coisa, só preciso de um pouco mais de dinheiro para isso.
– Não há mais dinheiro! Vamos deixar tudo mais claro. Quem coordena as ações a partir de agora é Simpson. – determinou Johnson.
– Esperem aí, eu recebo orientações diretas da Inglaterra! – reclamou Jones.
– Não mais. – disse-lhe Simpson apresentando um papel com um selo oficial.
– Acham que vou aceitar isto facilmente. Lembrem que tenho muitas informações e que se levadas a público prejudicariam em muito os negócios de sua Companhia.
– Tenho certeza disso! – afirmou Johnson.
Simpson bateu na porta. Dois sujeitos, armados, trouxeram Batista para dentro e o colocaram sentado numa poltrona.
– O que está acontecendo? – perguntou Batista aflito.
Os cinco homens continuavam uma discussão acalorada, em inglês. Batista conhecia algumas poucas palavras do idioma e as que entendeu o deixaram ainda mais preocupado. Ameaçou levantar. Os sujeitos armados não deixaram.
– Olá, senhor Batista? Gosta de charutos como o nosso amigo Jones? – Perguntou Johnson?
– Nunca experimentei um senhor. São raros e caros.
– Vai experimentar hoje. São de marca Hija de Cabañas y Carbaj, não é Jones. Espero que goste!
Johnson, dirigiu a palavra para Jones, que não gostou nada do que ouviu. Ameaçou uma reação mais dura. Simpson apanhou uma pistola na gaveta da escrivaninha e apontou para ele.
– Vai fazer isto aqui? – questionou Jones.
– Vamos aos charutos! – Sorriu Simpson.
Batista foi amordaçado e vendado. Mas tarde foi colocado na mala de uma carruagem. Num ponto mais afastado da cidade. O carro parou, Simpson desceu. Os homens tiraram Batista da mala, retiraram a venda e a mordaça. Suas mãos permaneciam amarradas.
Simpson iniciou um ritual e acendeu um charuto. Aproveitou o sabor com uma boa tragada. Com um gesto ofereceu-o a Batista. Aproximou-se do jornalista e o fez engolir o charuto, ainda acesso. Continuou até esvaziar a metade da caixa que ainda restava.
O corpo de Batista foi jogado em frente a porta principal do Clarín Diário. Já Jones, foi lançado ao mar depois de degustar a outra metade da caixa de charutos.
Na segunda-feira, o Clarín Diário apresentou em sua primeira página uma única frase sobre o acontecido: “HOJE A IMPRENSA SE CALA, AMANHÃ BUSCAREMOS RESPOSTAS”.
A harmonia entre os habitantes da cidade estava longe de ser alcançada e Pedro estava cada vez mais distante daqui e próximo de Portugal.









Adnelson Campos
13/08/2019

 

 

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