Jussara Lucena, escritora

Textos

O cemitério (novo)

Na nossa cidade, boa parte dos habitantes era de pequenos agricultores. Havia poucas ruas, quase nenhuma iluminação pública. Em algumas casas ainda se usavam lampiões.
Num ponto mais afastado de nosso bairro, havia uma pequena igreja, centenária, construída em madeira, pintada em verde. Não muito longe dela, um cemitério, com poucas sepulturas, simples, porém, a maioria muito bem cuidada pela população. As exceções eram algumas covas, com velhas cruzes, esquecidas com o passar dos anos. Numa delas, todas as noites uma luz de vela se acendia, muito embora ninguém soubesse quem o fazia. Da entrada do nosso sítio era possível ver. Vi uma vez, nunca mais olhei.
Meu pai, já aposentado da lavoura, era muito conhecido e comentado por ser um grande contador de histórias, daquelas de meter medo. Era só chegar a noitinha para que ele começasse a assustar os curiosos com seus contos, principalmente as crianças, que de olhos arregalados prestavam atenção em cada gesto, em cada palavra do velho contador de causos. Assim, cresci assustado e assombrações povoaram o meu pensamento.
Uma das histórias que eu mais ouvi era a de uma noite em que ele caminha pelos trilhos da estrada de ferro e, para sua segurança, carregava uma garrucha e uma faca atravessadas na cinta. Percorria o trecho entre a chave dos trilhos de acesso à madeireira e a Estaçãozinha, quando avistou ao longe a luz de uma fogueira no meio dos trilhos. Pode perceber a silhueta de duas pessoas agachadas em volta das chamas.
Não havia como desviar, pois logo a frente havia uma pequena ponte sobre um ribeirão. Pensou em voltar, porém encheu-se de coragem e seguiu. Cruzou os braços, segurando a pistola numa mão e a faca na outra, seguindo adiante. Chegando perto, desviou as pessoas e a fogueira pela lateral dos trilhos e cumprimentou-os: “Boa Noite!”
Os sujeitos se mantiveram de cabeça baixa, não houve resposta e o silêncio pareceu acentuar-se. Nem o calor das chamas sentiu. Meu pai ouvia apenas os sons dos próprios passos pisando tremulamente os dormentes de madeira. Ele caminhou poucos metros e voltou-se em direção aos homens e a luz. Não havia mais nada, apenas escuridão. Apertou o passo. Naquela noite não dormiu.
No dia seguinte, durante o dia voltou ao local. Com uma fogueira daquelas os dormentes deveriam estar queimados. Porém, não havia qualquer sinal de fogo, nenhuma brasa resfriada ou cinza restou.
Lembro do olhar frio do meu pai cada vez que contava a história e dos arrepios que percorriam o meu corpo também.
Assim passei muitos anos, apavorado pelas lembranças dos contos ouvidos em noites de chuva e frio, à beira de um velho fogão à lenha e sob a luz das velas da humilde casa construída em madeira em que morávamos. Ainda me lembro do barulho do vento passando pelas frestas da casa ou da luz da lua cheia que fazia o mesmo trajeto e que davam à noite e as histórias um tom ainda mais assustador e arrepiante. Acho que meu pai tinha combinação com os cachorros da vizinhança, que pareciam uivar com mais vontade cada vez que que meu pai começava suas contações.
Meu pai se foi, porém as lembranças dele sempre continuaram comigo. Morreu sem saber o quanto me fez um sujeito assustado. Passado o tempo, estruturei melhor o sítio, construí uma nova casa em alvenaria. Minha propriedade ficava no fim da estrada do areal. No meio do caminho, entre a minha casa e a vila, no alto de uma colina, o cemitério.
Para chegar ou sair de casa, eu não tinha alternativa, senão passar por lá, pois margeando o campo santo e a minha propriedade havia um rio com grande correnteza, de águas frias, onde instalou-se um areal. Ou se passava pelo cemitério ou se atravessa o rio a nado. Passar à noite pelo cemitério era algo impensável para mim. Assim, sempre voltei cedo para casa.
Num certo domingo, fui até a festa da igreja, uma das tantas que participei. Assisti à missa rezada pelo pároco, que passava por lá de vez em quando. Almocei e passei a tarde toda jogando bocha e conversa fora. Encontrei velhos amigos, disputei algumas partidas de truco, tomei um café com bolo e não vi o tempo passar.
Quando me dei conta, o sol já tinha desparecido no horizonte. Custei a acreditar que estava prestes a enfrentar o maior medo de minha vida. Os vizinhos mais próximos, que também faziam uso da estrada do areal já haviam partido. Eu estava sozinho. Pensei em pedir ajuda. O orgulho não me deixou. Uma opção seria passar a noite na casa de algum conhecido, mas a bicharada ficaria com fome
Sem alternativa, caminhei vagarosamente pela estradinha. Nenhuma luz, ninguém por perto. Repentinamente um ruído. Algo se mexera na mata. Um gato saiu correndo, e atravessou pelo meio de minhas pernas. Foi um grande susto. Respirei fundo e continuei a jornada.
Quase perto do cemitério parei. Minhas pernas não obedeciam mais, apenas tremiam. Resolvi sentar à beira da estrada e esperar, talvez alguém passasse e me acompanhasse. Assim seria mais fácil.
Já eram quase dez horas da noite e finalmente um vulto surgiu na estrada. Não sabia se ficava feliz ou se me escondia. Quem seria: um vizinho ou um assaltante? Quando o vulto ficou mais próximo percebi ser uma velhinha, curvada e manca, marcas do tempo. A fraca luz da lua crescente que penetrava por entre os galhos das árvores que ladeavam a estrada, iluminava o rosto pálido e os cabelos grisalhos da senhora.
– Boa noite! – Cumprimentei-a e passei a caminhar ao seu lado.
– Boa noite! Como vai o Senhor? – respondeu-me sem estranhar o fato de eu surgir repentinamente à sua frente.
Eu que nasci nas redondezas, não a reconheci. Continuei a conversa.
– Noite fria não?
– Sinto minhas mãos e o corpo todo gelado – respondeu a velha senhora.
– Muito buraco nesta estrada não?
– Já me acostumei – respondeu ela indiferente e seguindo o caminho com passos firmes, apesar da sua aparente fragilidade.
– A senhora mora por aqui? Não lembro de tê-la visto antes!
– Sim, moro já há muitos anos.
Estranhei, mas naquela altura não poderia questionar a velha senhora, pois era a única companhia disponível, minha salvação naquela noite de desespero. Já no meio da travessia, em frente ao cemitério, dirigi-me novamente à velhinha.
– A senhora não tem medo de passar pelo cemitério e a essa hora da noite?
– Olha meu filho, sinceramente, gosto muito deste cemitério, tanto que não saio dali já faz muitos anos.
Não pensei muito nas palavras da velha senhora e continuei a caminhar. Andamos por mais alguns metros e quando já terminava o terreno do cemitério a velhinha disse que ficava por ali, despediu-se e parou. Aliviado, apertei o passo até minha casa. Imaginei que a velhinha morasse na estradinha à direita do cemitério, quem sabe recolhida à sua velhice. Evitei olhar para trás, porém a curiosidade foi mais forte. Não a avistei mais.
Na manhã seguinte, tomei o meu café e antes de sair para o trabalho pensei: quem sabe eu não faço como a velhinha, vou mais vezes ao cemitério, me acostumo com o lugar e acabo perdendo o meu medo.
Assim o fiz. Levei um maço de velas para acender no cruzeiro. Depois de acendê-las, rezei e resolvi dar uma volta pelo cemitério. Olhei os nomes nas inscrições, as fotografias daqueles que já partiram para o outro lado da vida. Reconheci alguns rostos estampados em azulejos ou objetos de porcelana.
Congelei em frente a uma sepultura quando, em uma das lápides reconheci a imagem da velhinha, aquela que havia sido minha companheira de caminhada na noite anterior. Voltei para casa carregado.
Depois daquele dia ninguém mais me viu no lugar, mudei para a cidade grande, trabalho como zelador em um edifício, bem longe de um cemitério, com ruas bem iluminadas e com muita gente circulando. Velhinhos, nem cumprimento mais. Repito para as crianças do condomínio a história da senhora do cemitério, que num misto de medo e incredulidade, gravam cada palavra que falo. Ah! Também conto as histórias do meu pai. O que? Você não acredita? Observe o cemitério mais próximo de sua casa quando o sol começou a se esconder no horizonte e veja se a luz de uma vela não surge do nada e se um arrepio não toma conta da sua nuca!

Texto publicado na Coletânea Conversa pra boi dormir da Perse.

Adnelson Campos
26/11/2019

 

 

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