Jussara Lucena, escritora

Textos

Raios e escuridão (novo)

Uma das minhas primeiras missões, foi no verão de 1856. Tudo estava preparado para mais uma inserção. Esta foi a forma escolhida para semear tecnologia, de dividir um pouco do conhecimento que adquirimos.
Escolhemos o menino como hospedeiro. A preparação foi feita aos poucos. A mãe, em seus sonhos, nas noites de tempestades, foi a primeira a receber as informações.
Sim, as tempestades elétricas foram nosso instrumento para criar o nosso Mestre dos Raios. Mas houve um imprevisto. As descargas elétricas também afetaram uma outra criatura, concebida quase que no mesmo momento que a primeira.
Os partos aconteceram com diferença de poucos segundos. Os relâmpagos, raios e trovões criavam um clima assustador. A mãe parecia serena. Quando o menino dos Tesla chorou pela primeira vez, a parteira que o tinha nas mãos sugeriu que seria uma criança da escuridão, prenúncio de tempos tempestuosos. A mãe discordou, disse que seria da luz. Ela estava certa.
A parteira também estava certa, pois num quarto de hospital, perto dali o outro menino, Andras nascia para fazer da luz uma tentativa de escuridão.
Os meninos foram crescendo, como crescem os demais, exceto pelas visões. Tanto Nikola quanto Andras, as recebiam através de clarões de luz.
Com base nessas visões escolheram a profissão, formaram-se em Engenharia Elétrica e a partir daí começaram a compreender um pouco mais das informações que recebiam em nossas inserções. Percebiam que estavam a frente de seu tempo, mas não sabiam como explicar como recebiam suas informações privilegiadas.
Tesla desenvolveu seus projetos em benefício da humanidade, enquanto Andras envolveu-se em projetos de destruição. Tesla migrou para os Estados Unidos, Andras preferiu trabalhar na Rússia, escondido através de um falso nome e da menor expressão da Rússia, naquela fase da história, como potência industrial e tecnológica.
Mesmo apresentando os resultados concretos de seus trabalhos, muitos não os enxergavam como cientistas e acreditavam que os dois apenas transformavam a ficção científica em projetos teatrais, fundamentados nas ilusões que os perseguiam. Boa parte da comunidade científica os enxergava mais como preparadores de truques de engenharia do que como cientistas.
Nikola sabia do poder de suas descobertas. Ao mesmo tempo que a energia barata, transmitida à distância traria benefícios para a humanidade, o uso indevido das fontes geradoras ou do direcionamento das energias transmitidas poderia gerar destruição.
Andras, dispunha das mesmas informações e conhecimento, mas sua obstinação por construir um raio da morte era maior que a de Tesla. Ele uniu aos seus experimentos às descobertas dos Curier na área da radioatividade, modificando a natureza, com base em suas próprias leis e nas definidas pelas pesquisas dos Curier.
Não, nós não poderíamos interferir, apesar de nossa falha, pois queríamos o que de bom a tecnologia podia oferecer e colhemos armas de guerra com contrapartida.
O excesso de informações que recebia e o descrédito da sociedade os tornou obcecados, não pelo poder, mas pela busca do reconhecimento do gênio que era.
O primeiro grande teste do poder do raio de Andras aconteceu em 30 de junho de 1908. A partir de sua torre, numa pequena vila próxima a Moscou, dirigiu seus raios para o meio do Ártico, porém o gerador ainda não possuía capacidade suficiente para a distância e atingiu, por sorte, uma região de mais de mil quilômetros quadrados de floresta na região de Tunguska, na Sibéria. Como diziam alguns habitantes de regiões próximas, o clarão pareceu dividir o céu em dois. Indevidamente, alguns chegaram a propor que fora Tesla quem havia gerado tal destruição.
Com apoio de parte do governo Russo, Andras continuou seu projeto.
Em maio de 1824 o The New Times publicou que “Notícias vazaram dos círculos comunistas em Moscou que, por trás do recente pronunciamento de guerra de Trotsky, existe uma invenção eletromagnética para destruição de aviões”.
Sim, tanto Tesla quanto Andras sofreram pressões para desenvolver algo que pudesse neutralizar o poderio de outra grande invenção daquele início de século terrestre. Embora não se tenha registro de algum avião abatido em conflito, havia relatos de que alguns aeroplanos tenham desaparecido, sem explicação, em pleno ar. Verdade ou não, russos e alemães diziam ter obtido sucesso em suas baterias antiaéreas eletromagnéticas.
Ao menos os russos blefaram, mas Andras havia conseguido precisão em sua arma de raios, porém a curta distância.
No outro lado do mundo, em Colorado Springs, Tesla fazia demonstração do que poderia ser uma arma de raios.
O tempo passou, mas a obsessão dos dois pelo raio da morte não, foi a causa de sua ruína. Registraram, porém deixaram de lado muitas das informações por nós inseridas. Os governos sabiam que que era muita tecnologia nas mãos de apenas um indivíduo e armaram seus planos para reduzir a credibilidade dos dois, cada um em seu país de trabalho.
Sem dinheiro, não havia como levar os planos em frente. Andras era menos resistente e pensou em acabar com a própria vida. Antes, resolveu ler a coleção de recortes de jornais e de revistas que haviam lhe posto nas mãos, mas que ele recusava em ver, por não acreditar que alguém, do outro lado do mundo pudesse ter as mesmas ideias que ele.
Passou a noite em claro, lendo. Quando o dia amanheceu, percebeu que não poderia ser só coincidência. Uma das matérias lhe chamou a atenção. O texto dizia que Mark Twain era o autor preferido e amigo de Tesla. Um dos livros preferidos de Andras era O Príncipe e o Mendigo, do mesmo autor. Quando uniu este pensamento às informações da biografia de Tesla, pensou que talvez pudesse haver uma coincidência, pois habitavam a mesma região quando nascidos. Fisicamente não eram nada parecidos. Decidiu procurar Tesla.
Conseguiu com a ajuda de alguns amigos no governo russo sair disfarçadamente do país, já que possuía informações consideradas de segurança nacional pelos soviéticos. Pretendia dividir seus conhecimentos com Tesla, se ele já não os ti vesse todos, porém seu maior objetivo era receber mais do que fornecer informações. Voltaria para o solo russo, precisava recuperar sua reputação. Depois, desenvolveria sua máquina que deixaria todos em suas mãos.
Chegou em Nova York em junho de 1931. A capa da Revista Time estampava Tesla, em seu aniversário de 75 anos. A banca no aeroporto exibia os exemplares às dezenas. Embora reconhecido pela sua capacidade por cientistas e público em geral, Nikola estava pobre e recluso. Parecia a Andras que os dois teriam o mesmo destino, mas ele não tinha a fama do compatriota radicado em solo americano.
Quando encontrou o hotel onde Tesla se hospedava, Andras não acreditou no que via. Os homens realmente eram incapazes de compreender e valorizar a genialidade. Talvez a destruição os trouxesse à razão.
Andras bateu à porta do apartamento 333. O velho e desgastado Tesla o atendeu.
– Pensei que fosse o porteiro novamente. Eu já disse para ele que não sou eu quem traz os pombos até aqui. Espere, parece que o conheço! Já nos encontramos antes? – Perguntou Tesla, reconhecendo no homem à sua frente a mesma expressão de olhar que ele via todos os dias quando olhava no espelho.
– Não, não nos encontramos. Mas acho que temos algumas coisas em comum. Reconheço aquele projeto pregado na parede de seu quarto!
– Isto não é possível, o rabisquei e preguei ali hoje pela manhã e ninguém entrou aqui depois disso!
Sem olhar para o papel na parede, Andras começou a descrever os detalhes do projeto.
– Eu tive a mesma visão há dois dias, na cabine do navio que me trazia até aqui – afirmou Andras.
– Muito prazer, senhor...? Vamos entre!
– Jak milé setkání s vámi, jmenuji se Andras – falaram em tcheco a partir dali.
Tesla e Andras perceberam o quanto tinham em comum.
– Acho que seu amigo Mark Twain estava correto, sim, seria possível dois seres nascerem praticamente ao mesmo tempo e terem muito em comum, não na aparência, mas pelo conhecimento – disse Andras.
– Só que pelas aparências estamos os dois para mendigos e não há nenhum príncipe!
Ambos sorriram. Algo raro para os dois nos últimos tempos.
Os dois homens velhos falavam e anotavam freneticamente as informações de um e de outro. Se Andras desenvolvera seus estudos complementando-os com os dados das pesquisas radioativas, Tesla baseara alguns de seus projetos nas propostas de Einstein e de outros cientistas com quem havia convivido ao longo de sua vida.
Como era comum para eles, não perceberam os dias e noites passados, nem a fome os tirou o foco das discussões.
Depois de três dias, Andras partiu. Tesla usou um pouco da influência que ainda tinha e conseguiu uma passagem aérea para ele.
– Tem certeza que não vai usar seus raios para destruir o aeroplano? – Brincou Andras antes da partida.
Não chegou ao seu destino. Depois de pisar em solo inglês, foi abordado em um beco de Londres. Depois de lhe tirarem os blocos de anotações, ele foi espancado até a morte.
Mais tarde, alguns de seus inventos foram usados na guerra que surgiria, mas não o suficiente para se conseguir uma vitória.
Tesla ainda tentou convencer alguns banqueiros e empresários a construírem algumas das máquinas propostas por ele, com base em algumas das novas informações que obtivera. Quem o recebia, acreditava que ele estava mais louco do que nunca. O avião fora inventado há pouco e o homem insistia em uma máquina capaz de voar numa velocidade próxima da velocidade da luz.
Como Tesla insistia em divulgar tal conhecimento, o governo americano lhe confiscou os estudos. O tempo se apoderou de suas memórias.
Os homens no comando desenvolveram armas de alto poder de destruição. Fomos obrigados a voltar. Em breve, um novo nome surgirá e será capaz de proteger o homem de si mesmo. O projeto Guerra nas Estrelas prosperará e será capaz de destruir armas lançadas através da atmosfera terrestre ou interceptar corpos celestes vindos do espaço. Novas máquinas voadoras surgirão, outras já existentes chegarão. Não desistimos de nossa missão.

Texto fez parte da Antologia Tempestades elétricas da Porto da Lenha

Adnelson Campos
26/11/2019

 

 

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