Jussara Lucena, escritora

Textos

O tempo passeia pelas ruas da Pequena Havana

Eu caminhava pela praia, as ondas tocavam meus pés. Era fim de tarde, num dia frio. Não havia mais ninguém na areia. Havia apenas o barulho do mar, das ondas que quebravam nos rochedos do fim da praia. Olhei para leste onde a imensidão e a solidão das águas se faziam infinitas. Mais uma vez me peguei a perguntar: Viajamos no tempo? Vivemos mais de uma vida? Acumulamos memórias dessas vidas ou das vidas vividas por quem veio antes de nós? Não cheguei à conclusão nenhuma. Às vezes penso que talvez eu tenha vivido apenas um sonho, mas tudo parecia muito real.
Procurei viver da melhor forma, mas não encontrar uma resposta e ainda guardar o sentimento vivido me impediam de levar uma vida normal, muito embora eu não tenha a certeza do que seja viver normalmente. Um pensamento me consolava: se vivi uma vida passada, ou se viajei no tempo, ou ainda se levo comigo experiências ancestrais, uma das alternativas ou todas são possibilidades eternas. O que me resta e a espera.
Tudo surgiu quando atravessei o atlântico pela primeira vez e pousei na Espanha. Depois de pernoitar na capital espanhola, fui para a cidade de Cádiz, na região da Andaluzia, região de partida de muitas das expedições de descobertas que resultaram na ocupação das Américas. Talvez isto tenha originado o apelido carinhoso da cidade: a Pequena Havana, dada a sua semelhança arquitetônica com a capital cubana. Muito embora eu acredite tenham sido os construtores de Havana que devem ter se baseado nos traços de Cádiz para a construção de sua cidade.
Fiquei ansioso para conhecer um pouco da história do lugar e nada melhor do que caminhar pelas ruas de uma cidade para aprender um pouco sobre os hábitos de seu povo, sobre sua cultura. Sempre achei que haveria algumas semelhanças com nossos costumes, surpreendi-me com o que encontrei.
O povo espanhol é muito religioso, predomina o catolicismo e na pequena cidade, a exemplo do que ocorre em todo o país, existem muitas igrejas, algumas mais simples, outras mais ricas e até algumas exóticas.
Passando por uma das calles estreitas pude perceber o movimento de entrada em uma das construções antigas do local e quando foi aberta uma pequena abertura instalada em uma porta maior, de madeira e amarrada por peças metálicas e muitos cravos, pude ouvir cantos religiosos que me pareciam familiares. Entrei.
Embora externamente não parecesse, era uma igreja, pequena, mas com um enorme pé direito, um belo altar esculpido em madeira e que ocupava toda a parede. Possuía muitas imagens e esculturas representando as principais personagens da história da igreja católica.
Antes de começar a missa, um grande grupo de pessoas rezava uma novena. Após observar por alguns instantes, fui transportado para a minha infância, época em que frequentava as aulas de catecismo. Minha professora era a minha tia. Muito religiosa, costumava puxar o terço nas novenas da pequena capela de nosso bairro ou nas casas de pessoas da comunidade. Depois de algum tempo acompanhando-a em sua missão voluntária, em muitos dos eventos eu mesmo passei a puxar o terço. Memorizei cada uma das etapas, os tempos necessários e os cantos de costume.
De repente eu estava lá, no velho continente e embora o idioma fosse outro, eu me senti à vontade para repetir o ritual das novenas de infância. A mesma entonação, o mesmo ritmo arrastado das rezas e cantos sem acompanhamento de instrumentos musicais. Refleti sobre o ocorrido e cheguei à conclusão de que aqueles costumes atravessaram a barreira do tempo e resistiram por pelo menos quinhentos anos, mantendo aqui no Brasil a fidelidade às origens que parece ser comum para espanhóis e portugueses.
Porém, esta não foi a única vez, durante aquela visita, que eu me transportaria no tempo, não numa lembrança de infância, nesta mesma vida. Minha viagem foi mais longa, atravessou séculos.
No fim de tarde, na beira da praia, olhei para o mar. Tentei imaginar o meu país no outro lado, depois de acabado o oceano, que parecia infinito e lembrei que somos uma mistura de povos e de culturas. Pensar que aqueles que vieram do velho continente para cá e nos antecederam também sofreram a influência da miscigenação e da migração dos povos da própria Europa, Ásia e África é algo curioso. Nós, cidadãos deste mundo temos muito mais em comum, uns com os outros, do que podemos imaginar.
A noite não demorou a chegar e o ambiente parecia permitir a sensação das emoções vividas pelos antigos habitantes do local, impregnado de histórias e dos fantasmas dos povos que ali habitaram. Tudo parecia voltar a vida sob as luzes artificiais ou nas sombras e fachadas dos sobrados, construídos nas ruas estreitas, calçadas com pedras.
Por alguns instantes me distraí e virei na rua errada. Ao contrário das demais, ela estava vazia. Nas outras ruas as famílias se reuniam em frente às casas, no fim de tarde, início da noite para conversar e o burburinho era acentuado. Ali, apenas silêncio. Nem as luzes dos sobrados estavam acesas. Eu podia ouvir o som dos meus passos sobre a calçada. Por alguns instantes, a energia elétrica faltou. Parei. Tentei me ambientar e forcei a visão tentando enxergar algo.
Ouvi um sussurro: Cassius, que bom que voltou! Não era o meu nome, mas senti como se fosse. Atrás de mim, percebi o movimento rápido de alguém que vestia branco e que desapareceu na curva da rua estreita. A luz voltou e com ela o vai vem de pessoas.
Pensei estar cansado, estava vendo ou deixando de ver coisas. Pedi a um velho senhor informações de como voltar para o hotel. No caminho de volta, busquei a mulher que me chamava, porém não sabia que rosto procurar.
Naquela noite demorei a dormir, procurando explicações para o que acontecia. Antes de conseguir pegar no sono, levantei e abri a janela do quarto. Na sacada, a brisa que soprava e o som das águas do mar me trouxeram a memória um posto de guarda. No horizonte nada além da luz de um farol e o do brilho ofuscado de algumas estrelas, que começaram a ficar escondidas por uma forte neblina que se formava. Na realidade, não havia farol ou neblina, apenas as luzes rápidas dos carros que circulavam na avenida.
Muitas vezes eu tive a impressão de já ter estado em algum lugar que visitara pela primeira vez, porém, agora, eu não identificava pontos de referência de visita anterior ou paisagens já vistas, apenas sensações. Uma delas era de perda, de vazio e eu não sabia o porquê.
O dia seguinte começou chuvoso, mas logo depois deu lugar a um céu de azul absurdo e muito calor. Decidi abrigar-me e fui até um dos museus da cidade. Sob o ponto de vista do conhecimento, foi um dos momentos de maior aprendizado em minha vida, até então. Mais do que isto, me permitiu resgatar algo que eu nem imaginava ter experimentado.
Embora Cádiz seja um museu a céu aberto e em cada escavação ou demolição que ocorra na cidade sejam encontrados vestígios de civilizações anteriores, o Museu de Cádiz, um prédio muito bem cuidado, guarda um acervo organizado cronologicamente que representa muito bem todas as fases da ocupação do lugar ao longo da história.
Na instalação são encontrados objetos da idade do bronze, da passagem dos fenícios que usavam o lugar como ponto comercial e a partir daí das civilizações que ocuparam ou invadiram a cidade como os mouros, os romanos, ingleses e outros.
Muito me impressionou o desenho e a qualidade empregados na confecção de joias antigas, expostas no local. Tais objetos são anteriores a era cristã, porém servem de inspiração para os atuais designers e outros artistas. Não menos antigos são objetos fabricados em vidro das mais diversas cores e formatos.
Eu me surpreendia com o que eu encontrava em cada sala. Tanto com aquilo que o homem era capaz de construir, quanto com o seu poder de destruição. Mas nada me tocou mais do que um achado na sala da Época Romana.
Lá era apresentada parte de um cemitério, transportado até lá, com um túmulo aberto. Na cova um esquife de vidro que envolvia um esqueleto deitado de costas. Aos seus pés uma placa com as inscrições “Aqui jaz uma cidadã de Pompéia amada e querida pelos seus”. A cena dos restos mortais ali expostos me trouxe lembranças que me pareciam há muito esquecidas. Os ossos resistiram aos mais de dois mil anos.
Não deveria, mas me senti tentado a tocar numa pedra que envolvia o túmulo. Voltei a 118 a.C. Lucila era a esposa de um dos homens fortes de Roma que dominavam o lugar. Sim, eu a conheci, eu a admirei. Não consegui protege-la. Imediatamente as lágrimas começaram a rolar em minha face, num choro desesperador.
Muito jovem, ela saiu da casa de seus pais, em Pompéia, direto para um navio que a levaria até a região gaditiana. Lá viveu por quase dez anos, isolada na área fortificada da cidade romana em território espanhol. Até então estava segura, porém afastada da realidade fora das muralhas.
Ela se revezava nas atribuições de mãe e de esposa de um general, o que incluía comparecer a eventos públicos para ser admirada pela multidão que era obrigada a saudar seus governantes.
Eu, o chefe da guarda, responsável por protege-los. Um humilde escravo, transformado em soldado. Dada a minha condição, reprimia meus sentimentos. Doía ainda saber o quanto ela era infeliz em sua condição de esposa, preterida pelo marido que preferia as festas e o sexo com as escravas de seu Império.
Lucila tinha os cabelos castanhos, ligeiramente ondulados, compridos, lembravam a própria Eva no paraíso. Em meus sonhos, o desejo de senti-los pendentes sobre o meu rosto num beijo se repetia.
O olhar dela era profundo, vibrante, cheio de vida. Seus olhos, seu cartão de apresentação. Como podiam tais olhinhos penetrar tanto na alma de alguém? Eu me imaginava redesenhando os contornos de suas sobrancelhas com meus dedos.
O brilho que emanava daqueles olhar me dava força, me fazia sonhar e acreditar que valia a pena viver. Em outras horas, quando eu lembrava que era impossível tê-la em meus braços, o vazio tomava conta do peito e a vida não fazia mais sentido. A cada dia que passava, a esperança se renovava e logo depois desaparecia quando ela se recolhia aos aposentos com o marido.
Também presenciei, calado, suas lágrimas, doces, sinceras e que vinham em cascata nos seus momentos de solidão. Ela parecia confiar em mim, caso contrário, não deixaria que eu presenciasse tais momentos.
Inteligente, perspicaz, era capaz de traduzir num sorriso todo o seu pensamento. Os sorrisos, por sinal eram raros, mas capazes de desmanchar o coração de um homem.
Certa vez, arrisquei aproximar-me. Ela, respeitosamente me afastou. Lembrou-me de seu compromisso e da minha jura de lealdade ao Império. Porém, quando ela disse que o coração não obedece às leis, nem escolhe o que sentir, quando sentir ou por quem sentir, enchi-me de esperanças.
Passaram-se alguns anos até que eu pudesse tê-la em meus braços. A pouca distância, eu pude perceber os contornos do corpo que transformavam a pequena em grande mulher.
Sua pele alva, confirmava sua pouca exposição ao sol e ao mundo. Apesar de suave ao toque, me despertava os mais ardentes desejos.
Sua boca pequena, seus lábios finos transformaram-se no beijo. Eram doces, contagiantes, sufocantes. Valeria a pena morrer para tocá-los novamente.
Durante os segundos que permaneci ligado aos seus lábios, o tempo pareceu perder a lógica e eu pensei que a eternidade fosse possível. Voltei à realidade quando assustada ela empurrou-me pelo peito e desesperada correu para longe do jardim.
Naquele momento, restaram-me o perfume das rosas e a lembrança do cheiro dela em minhas mãos. Queria poder gritar, falar sobre o meu sentimento. Sufoquei minhas lágrimas.
Me afastei, porém, seus olhares mostravam que ela continuava desejando estar comigo e em certo dia, quando marido saiu numa missão, convidei-a para os meus aposentos. Ela, para minha surpresa, aceitou.
Quase todos dormiam e pedi que homens de confiança vigiassem as passagens. Correndo riscos, ela veio até mim. Lembro de seu rosto assustado, dos passos lentos, como quem não quer chegar. A mulher feita, parecia assustada. Olhando para ela, parada, em pé diante de mim, eu só queria que ela me beijasse, me tocasse, se entregasse totalmente.
Ofereci-lhe uma bebida, o que ela não quis. Contive meus sentimentos, minhas vontades, minha ansiedade por abraça-la e conversamos durante algum tempo.
A voz suave, doce, expressava todo o romantismo que possuía e também mostrava toda a sua força, sua opinião ou descontentamento. Tudo sem perder a ternura.
Entre lágrimas e sorrisos, falou-me de seus sonhos, da sua infância à sombra do Vesúvio e às margens do Mar Tirreno. Recostou sua cabeça em meu ombro, acomodou-se por alguns segundos e depois tocou os meus lábios num beijo.
Levantamo-nos. Lenta e suavemente comecei a tirar suas roupas. O frio tomava conta do seu corpo que então se arrepiava. Fez-me bem pensar que fosse o meu toque que provocasse tal reação nela.
A cavidade do pescoço, as curvas da cintura, tudo convidava para o carinho. Minhas mãos pareciam ter nascido par repousarem ali. Beijei todo seu corpo. Deitei-a e continuei a acariciando.
Quando comecei a deitar-me por sobre ela, faltou-lhe o ar e ela pareceu desesperar-se. Eu não queria sair dali. Pensei em quanto eu a desejava, em quanto eu queria que ela fosse a minha mulher.
Porém, pedi-lhe calma e deitei ao seu lado. Ela levantou e começou a vestir-se rapidamente. Eu a segurei pelos braços por alguns instantes e lhe disse o quanto a amava.
Ela baixou a cabeça e dirigiu-se em direção a porta. Voltou-se para trás e o meu coração encheu-se de esperança. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela sorriu timidamente, acenou e saiu.
Eu apenas queria fazê-la feliz, mesmo que por um instante. Não a vi nos dias que se seguiram e a angústia só aumentava.
Duas semanas depois ela surgiu, compareceria ao Teatro Romano. Em seu rosto, olheiras profundas e pouco brilho no olhar. Evitou cruzar seus olhos com os meus. Eu fiz parte de sua guarda durante o percurso. Na saída ela parecia mais leve e pude perceber até um discreto sorriso enquanto conversava com outra senhora do grupo.
No caminho de volta, o grupo que formávamos foi atacado por alguns rebeldes que queriam vingança pelo massacre ocorrido em uma pequena aldeia, no dia anterior, onde outros soldados romanos, à procura de um ladrão invadiram a casa de pessoas inocentes e tiraram suas vidas de forma vil e despreocupada.
Na confusão, entre gritos e empurrões da multidão, ela foi vítima de uma lança improvisada, atirada na direção de alguns soldados. Ela agonizou nos meus braços. Seus lábios mal tiveram força para dizer que me amava.
Eu mesmo ajudei a preparar sua cova. A chuva que caia ajudava a disfarçar minhas lágrimas, inexplicáveis naquela circunstância.
Não dormi nas três noites que se seguiram. Também não me alimentei. Em cada canto daquela cidade e a procurava. Sabia que não seria possível reencontra-la, mas meu coração e meu cérebro tentavam me convencer do contrário.
Caminhei pelo jardim onde eu costumava encontrá-la. Apoie-me no tronco de uma das árvores que sombreavam o local. Fechei os olhos por alguns instantes e me desliguei de tudo. Senti um leve toque em meu ombro e pensei ter ouvido meu nome, Cassius, num sopro em meu ouvido. Virei-me e me vi de volta ao presente contemplando seus ossos, numa cova solitária.
Talvez tenha sido só um sonho, vivido à luz do dia. Mas se somos influenciados por vidas passadas, ou possamos viajar no tempo, talvez Cádiz seja o meu portal para o passado. Aquele também foi meu último dia lá. Hesito em voltar.
Talvez aquela experiência explique porque eu não tenha conseguido encontrar alguém que me importasse de verdade. Se eu estou aqui, nessa vida, quem sabe ela esteja em algum ponto esperando por mim. Se não, quem sabe eu a encontre em outra vida futura – pensei.
O vento começou a soprar ainda mais frio. Depois de descansar um pouco, sentado na areia, me levantei. À distância, apesar da já pouca luz pude perceber que mais alguém caminhava pela praia. Por instinto, eu queria me aproximar rapidamente, mas minhas pernas pareciam pesadas.
A figura curvada para frente, cabeça baixa, parecia não notar a minha presença. Já mais perto, eu pude perceber uma mulher, vestindo branco, cabelos soltos ao vento. Carregava os chinelos nas mãos e chutava levemente as águas que molhavam seus pés.
Ela parou, virou-se para o mar e começou a avançar lentamente. Soltou os chinelos e começou a afundar nas águas. Tentei me aproximar o mais rápido que pude, minhas pernas continuavam não obedecendo. Eu não chegaria a tempo. As águas agora pareciam enfurecidas. O corpo dela flutuava ao sabor das ondas e ela não reagia, não se debatia.
Finalmente, consegui chegar até ela. Arrastei-a até um ponto mais seguro nas águas, a apanhei no colo e com todas as minhas forças caminhei em direção à praia.
Apesar da diferença no corte de cabelo era ela, um pouco mais jovem, mas ela: Lucila. Ou seria alguém muito parecido?
Deitei-a na areia. Olhei em volta para pedir ajuda. Não havia ninguém. Retirei um colar que ela usava para não a machucar, e coloquei em meu bolso. Usei um pouco do que aprendi num treinamento de primeiros socorros para manobras de ressuscitação, sem resultado.
Mais uma vez eu não tinha chegado em tempo de protege-la. Desta vez nem consegui ao menos algum tempo ao seu lado.
Corri desesperado em direção às luzes mais próximas para pedir socorro. Encontrei um garoto e pedi o telefone celular emprestado. Esperei por ajuda ali mesmo. O carro do Corpo de Bombeiros chegou rápido e ajudei-os a carregar os equipamentos em direção à praia.
Não a encontramos. Pensei ter errado o ponto da praia e corri como louco tentando localizar o seu corpo.
Os soldados tentaram me acalmar, repetiram muitas vezes as mesmas perguntas. Entendi que me achavam perturbado. Me levaram a um hospital, depois para uma delegacia. Eu não conseguia explicar o que estava acontecendo, ninguém acreditaria nas minhas visões. Talvez eu estivesse enlouquecendo mesmo.
As lembranças da garota, inerte em meus braços não saiam do meu pensamento. No quarto dia, decidi sair para trabalhar. Voltei para casa muito tarde. Passei boas horas vagando pelas ruas. Não tive coragem de voltar àquela praia.
Quando cheguei em casa, sobre a mesa havia um bilhete e o colar. Eu havia me esquecido dele. A empregada o achara quando colocou a roupa para lavar. A conjunto era feito em prata. A medalha, um Denário perfurado e com a estampa de Tibério Graco, Cônsul Romano, parecia recém cunhado, apesar dos seus quase 2.200 anos. Se a corrente e a medalha eram reais porque ela não seria? Como uma outra jovem, em pleno Século XXI o usaria.
Naquela noite dormi segurando a medalha.
Acordei com as batidas de um policial em minha porta. Estavam dando por encerradas as buscas da garota. Ninguém havia relatado o sumiço de qualquer pessoa no período. O homem não perdeu a oportunidade de me dizer que continuavam me monitorando, pois eu era suspeito do desaparecimento de uma mulher que, em princípio, ninguém acreditava existir.
Tomei uma ducha e uma xícara de café amargo para despertar. Depois, sentado em frente à janela, em um ambiente mais claro, comecei a analisar a moeda. Além do nome do Consul, haviam numerais intercalados por letras. Entretanto, não pareciam representar datas ou algo parecido.
Transcrevi os dados para uma folha de papel e tentei organizá-los para uma possível decodificação. Foi mais simples do que eu imaginava. Eram coordenadas geográficas: 36 31 42 N 6 17 37 W.
Lancei os dados num localizador e encontrei o Teatro Romano de Cádiz. Eu precisava voltar. Quem sabe lá eu encontrasse a chave para uma passagem no tempo e voltar a encontrá-la.
Decidi deixar tudo o que eu tinha e viajar até lá. Os recursos seriam suficientes para passar algum tempo sem trabalho e buscar uma forma de encontrá-la.
Já se passavam dois meses desde o meu retorno à Cádiz e depois de muita pesquisa, de vasculhar cada canto e corredor do Teatro, não encontrei nada que me deixasse mais perto dela.
Decidi voltar ao Brasil. Antes caminhei mais um pouco pela cidade e já me aproximava do Teatro Romano, indo pela Calle San Juan de Dios. A medalha estava em minhas mãos e eu olhava para ela enquanto caminhava, distraidamente. Não percebi a aproximação de dois sujeitos. Apontaram-me uma arma e pediram minha carteira. Entreguei sem reagir. O segundo sujeito tentou tirar a medalha de minhas mãos. Resisti.
Como reação, ele me deu um tiro. Senti a queimação no peito e caí de joelhos. O homem jogou a medalha a meu lado. Com esforço, consegui apanhá-la. Tudo escureceu. Eu não sentia dor, mas meu corpo ainda pesava.
Caído no chão, consegui abrir os olhos e percebi que ela se aproximava. Lucila sorria e seu sorriso me trazia paz. Estendeu a mão para mim. Levantei-me e a segui pela porta que se abria num dos arcos da lateral do Teatro Romano.

Texto publicado na antologia Mnephile da Coverge

Adnelson Campos
26/11/2019

 

 

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