Jussara Lucena, escritora

Textos

Laredo em chamas (novo)

Num final de outono, os trilhos e dormentes vibraram. Eram os primeiros sinais da chegada do trem das onze horas. Em breve ele cruzaria a ponte do Rio Bravo. Nele viajavam quatro sujeitos aparentemente inofensivos, mas que marcariam a vida dos moradores das margens do Rio Grande.
Há sete anos foi um pouco diferente, mas no mesmo trem desembarcaram três sujeitos de caráter duvidoso: Joe Reeze e seus dois irmãos, Kenneth e Browne. No início pareciam apenas alguns sujeitos ávidos por trabalho na condução do gado. Depois, mostraram para o que realmente vieram.
Disfarçadamente foram eliminando um a um os patrulheiros do lugar e depois começaram seus atos de violência e roubo contra a população. Associaram-se a Harrison Wayne, um dos comerciantes do lugar. Wayne montou um bando fortemente armado. Com a lei fragilizada, passou a dominar o comércio local e tornou-se um dos banqueiros da região.
Tudo parecia mudar quando Richard Johnson, filho de Bill Johnson, um pequeno fazendeiro, voltou depois de seus estudos na Inglaterra. Na véspera de sua chegada havia mandado um telegrama ao pai. Trazia consigo muitas ideias de como melhorar os negócios da família. Tinha propostas para usar melhor os recursos da ferrovia. Com seus contatos na Inglaterra pensava poder modernizar sua Laredo.
Outro motivo também o fazia feliz pela volta. Trazia consigo um presente para Alejandra: um belo vestido. Não tinha certeza se serviria, pois quando havia partido, a menina, filha do ferreiro, tinha catorze anos. Richard apenas imaginava, mas não tinha certeza como teria sido a transformação dela. Os olhos, tão negros quanto os cabelos ligeiramente ondulados ainda seriam os mesmos.
Richard foi surpreendido com a casa da família ainda em chamas. Não sobrou muita coisa dos corpos carbonizados de Bill e Emilie Johnson.
Procurou por Pablo Gonzalez, o ferreiro. Ele havia sido atingido, diziam, por uma bala perdida em um tiroteio na cidade. Quanto a filha, depois da morte do pai, se viu obrigada a ceder ao insistente assédio de Harrison Wayne.
Quando Richard circulava pelas ruas empoeiradas da cidade, se deparou com uma das mais belas visões de sua vida. Sim, era ela. Mantinha o mesmo brilho no olhar. Correu para aborda-la. Tudo aquilo causou estranheza para um sujeito que a observava, encostado numa pilastra do alpendre do saloon.
– Senhora, por favor, um momento!
A mulher, mantendo a cabeça baixa, virou-se em direção a Richard. Levou alguns instantes para se situar, depois abriu um sorriso contido e comentou:
– Rick, é você mesmo?
Nem em meus mais completos sonhos eu poderia imaginar que você ficaria ainda mais bela.
Richard pensou em abraça-la, ela percebeu a intenção e recomendou:
– Rick, eu gostaria muito de um abraço seu, mas não seria seguro. Há muitos olhos de Harrison Wayne espalhados por aí.
– Soube que se casou com ele. Quem é o sujeito?
– Logo depois que você partiu, o banqueiro trouxe um empregado para cuidar de seus negócios na cidade. Em pouco tempo, com a misteriosa morte do banqueiro, Wayne assumiu a direção dos negócios. Nunca mais a população de Laredo pode dormir tranquila.
– Você sabia disso? Se sim, porque se casou com ele?
– Wayne emprestou dinheiro para o meu pai, convencendo-o que deveria investir em gado. Meu pai se iludiu com o dinheiro fácil. Trabalhou muito, porém, sua boiada foi roubada. Ficamos na miséria. Com a morte de meu pai passamos fome. Minha mãe e meus irmãos foram ameaçados pela dívida de meu pai. Cedi a Wayne para protege-los.
– O incêndio na casa de meus pais, você acha que pode ter sido ele?
– Seu pai desafiava Wayne. Ele e alguns de seus amigos não aceitaram suas propostas. Talvez ele tenha incendiado tudo como um aviso para os demais
– Vou mata-lo?
– Sozinho? Você nunca teve coragem de tirar a vida de um simples animal! Ou no seu curso de engenharia aprendeu a atirar? O melhor que tem a fazer é sair da cidade enquanto há tempo.
– Eu lhe trouxe um presente. Acho que acertei na escolha.
– Obrigado! Mas não poderei aceitar. Você vê aqueles dois sujeitos na porta do saloon? Em breve Wayne será alertado da sua presença. Ninguém na cidade ousa me abordar. Por favor, vá!
Alguém tocou o ombro de Richard, que não teve tempo para reação, foi atingido por um soco no queixo. Acordou numa cela, sentindo dores por todo o corpo.
– Então você é o filho de Bill Johnson? – questionou o Xerife Barclay.
– Ou o que restou dele – respondeu Richard. Porque estou preso?
– Está preso para que não seja morto! Aqui está a sua passagem para o trem de amanhã. Esqueça Laredo, e, principalmente, nunca mais olhe para Alejandra Wayne.
Tudo o que Richard queria era vingança, porém aprendera que para qualquer desafio é preciso preparo. Muitos o chamariam de covarde. Ele embarcou no trem, mas jurou que voltaria.
Richard treinou muito sua pontaria. Deixou forma uma barba bem aparada. Trabalhou na construção de algumas pontes e com o dinheiro acumulado contratou outros dois pistoleiros. Num dezembro de 1853, viajaram para Laredo.
Chegaram bem vestidos, em longos casacos negros. As armas guardadas nas bolsas. Hospedaram-se no melhor hotel. À noite foram até o Saloon do Doc, passando-se por comerciantes em busca de diversão. Perderam algum dinheiro nas cartas, assim não incomodaram os frequentadores do lugar.
Richard observava cada detalhe, cada rosto. Foi fácil reconhecer um grupo trocando olhares e informações. Com certeza seriam homens de Wayne os observando. Beberam, o suficiente para que não ficassem embriagados, porém fizeram questão de fingir que o álcool os afetara. Depois de algum tempo, garantiram que os vissem voltando para o hotel.
Quase na madrugada, saíram pelo telhado, nos fundos do hotel. Dessa vez portavam seus Colt 44 e um bocado de munição. Os rostos cobertos pelo chapéu e por lenços escuros. Próximo do saloon, quatro cavalos alimentados e encilhados esperavam por eles. Nenhum dos animais era de Laredo.
Pouco depois, os capangas de Wayne deixaram o saloon. Antes mesmo de montarem os cavalos, foram abordados pelos quatro pistoleiros e facilmente alvejados. Richard sacou a arma, porém não conseguiu disparar. Teve sorte, um tiro dos homens de Wayne lhe furou o chapéu, raspando de leve a sua testa.
Quando os demais frequentadores do saloon saiam para ver o que acontecia, os quatro já disparavam para fora da cidade em seus rápidos cavalos. Wayne começava a experimentar um pouco do seu próprio veneno.
Os quatro fizeram meia volta e sorrateiramente voltaram para o hotel em tempo de atender o rapaz da recepção que a mando de um dos homens de Wayne buscou se certificar de que não eram eles os autores da emboscada.
No dia seguinte, a diligencia foi assaltada e o malote do banco de Wayne desapareceu. Os dois capangas que escoltavam a viagem foram mortos. Os cavalos foram levados também.
À noite, parecendo indiferentes, os quatro voltaram ao saloon. Jogavam em uma mesa, quando foram abordados pelo próprio Wayne. Reeze se posicionou estrategicamente na mesa vizinha.
– Boa noite, senhores!
– Boa noite! – respondeu Richard.
– Posso me sentar?
– Claro, faça de conta que a cidade é sua! – ironizou um dos homens de Richard Johnson.
– Então já me conhecem?
– Conhecemos do retrato na parede do banco, senhor.
– O que fazem em minha cidade?
– Só de passagem, buscando um pouco de diversão, antes de uma temporada no lado mexicano – afirmou Richard.
– São jogadores? Pistoleiros?
– Não, senhor. Somos apenas negociantes de uma empresa associada da ferrovia.
– Você de sotaque inglês, posso saber o seu nome? Só para me certificar de que fala a verdade.
– Edgar Armstrong.
– Pois bem, senhor Armstrong. Amanhã pela manhã, peguem o trem e desapareçam da cidade!
Richard levantou-se. Rapidamente Reeze apontou-lhe a revólver para a cabeça.
– Não estou armado, senhor Wayne. Meus amigos também não. Nos recomendaram que não procurássemos encrenca em sua cidade. Só paramos para descansar um pouco. Falaram muito bem do saloon do Doc. A bebida é boa também.
Wayne deu as costas para Richard, repentinamente fez meia volta e desferiu um soco em seu rosto.
– Sua presença me incomoda. Agora saiam!
Richard e os empregados saíram sem reclamar. Tudo estava funcionando como planejado.
No dia seguinte, foram para a estação. Enquanto caminhavam, Wayne surgiu numa charrete. Alejandra ao seu lado. Parou próximo dos quatro:
– Vejo que aceitou o meu conselho, senhor Armstrong!
Richard não respondeu, manteve a cabeça baixa, torcendo para que Alejandra não o reconhecesse. Porém, ela reconheceu. Sabia que Richard corria perigo.
Wayne sacou a arma e deu um tiro próximo dos pés de Richard. Ele fingiu assustar-se mais do o necessário.
– Veja Alejandra! Esses covardes devem ter borrado as calças. Malditos almofadinhas!
Os quatro apertaram o passo, enquanto Wayne gargalhava.
Sua hora vai chegar – Pensou Richard.
– Você me parece incomodada, Alejandra. Conhece os sujeitos?
– Fiquei preocupada. Esses quatro não parecem perigosos, então os assassinos de seus homens ainda estão por aí. Eu também corro perigo.
– Não há com o que se preocupar, ninguém ousaria mexer com alguém da minha família.
Na estação seguinte, Maape, o índio esperava pelos quatro com cavalos preparados. Na carroça, armas, munição e suprimentos para um mês todo. Foram para próximo de Laredo, ocupando um galpão da fazenda do pai de Richard que não havia sido destruído pelo fogo. Maape já havia limpado o lugar.
Certa manhã, dois dos homens de Johnson assaltaram o banco. Em seguida, um bando de empregados de Wayne saiu em perseguição aos dois. Os oito homens foram mortos em uma emboscada, próximo de algumas colinas que já começavam a acumular um pouco de neve.
Wayne ficou furioso. Mandou um exército de homens vasculharem os arredores, deixando menos protegida a sua fazenda.
Durante a noite, os guardas da fazenda foram mortos, silenciosamente, por flechas. Estranhamente não eram do tipo das fabricadas pelos índios da região. Com as sentinelas abatidos, o gado foi solto e alguns estábulos incendiados.
Foi o suficiente para assustar Wayne, que cobrou providências do Xerife.
– Como posso prender fantasmas? – esbravejou Barclay.
– Se fossem fantasmas, eu não me assustaria!
– Então está assustado?
– O senhor é quem deveria estar assustado Xerife. Posso chegar à conclusão de que não preciso mais dos seus serviços.
– Meus homens estão a postos Wayne. Se alguém se aproximar da cidade, saberemos.
Curiosamente os homens de Wayne foram mortos, um a um. Ninguém da equipe de Barclay era atingido. Wayne começou a desconfiar de Barclay e, pessoalmente, executou o Xerife. Isto intimidou os patrulheiros que partiram da cidade.
Wayne mudou-se com Alejandra para o hotel da cidade. Achou que fazia a coisa certa, pois seu rancho fora incendiado e quase todos os seus homens mortos. Restaram apenas Reeze, seus irmãos e mais uma dezena de capangas, que se espalharam pela cidade.
Seis dos homens de Wayne, que ocupavam os telhados próximo do hotel foram atingidos por flechas certeiras. Em seguida, um cavalo percorria em disparada as ruas da cidade. Outros homens de Wayne já assustados, dispararam, identificando sua presença. Foram atingidos por tiros de winchesters. Restavam apenas Reeze e seus irmãos.
Acuado, Wayne se escondia no quarto do hotel. Enquanto isso, Reeze e os irmão se posicionaram na rua central. Nenhum dos moradores ousava sair. Os boatos de que os fantasmas dos queimados por Wayne voltaram para vingar-se ocupava cada canto da cidade.
No lado oposto, surgiram os homens de Richard Johnson. Os dois grupos caminhavam e se aproximavam cada vez mais, esperando a distância para um tiro certeiro. Os homens de Wayne se anteciparam, o que permitiu para o outro grupo melhor avaliar a situação. Depois de um intenso tiroteio, os irmãos estavam estendidos no chão, lambendo poeira.
Richard parou em frente ao hotel e gritou:
– Wayne, saia para fora, precisamos acertar nossas contas!
– Quem é você, fantasma?
– Alguns me chamam Edgar Armstrong outros de Richard Johnson. Espero que você me chame Pesadelo.
– Você vai queimar com o velhote que tentou salvar a mulher que ardia em chamas!
– Saia e veremos!
Wayne tentava demonstrar segurança, mas o suor lhe escorria por todo o corpo. Parou para pensar, quando olhou pela janela e viu o Banco em chamas.
– Alejandra, você conhecia o filho de Bill Johnson. O reconheceu quando eles partiam!
Wayne torceu o braço de Alejandra e a fez descer as escadas, usando-a como escudo humano.
– Johnson, solte sua arma, se não a mato!
– Solte-a, vamos resolver isto nos dois.
Wayne beijou Alejandra forçadamente e a jogou ao chão. Colocou-se em posição de duelo. Se sentia confiante, pois era uma das pistolas mais rápidas da região.
Richard se preparara muito para aquele momento, porém ainda não havia atirado de verdade num homem. Suas mãos começaram a suar.
Quando ficaram mais próximo, Wayne percebeu a insegurança em seu olhar.
– Então, almofadinha? Está com medo? Depois que eu acabar com você e com seus amigos, Alejandra será a próxima. Receberá um tiro da mesma arma que atingiu aquele porco mexicano, seu pai.
Tudo o que Richard queria era sacar a arma e acabar logo com aquilo. Mas suas mãos não obedeciam e começaram a tremer. Wayne sacou a arma e deu o primeiro tiro, atingindo a mão de Richard que segurava a arma. O segundo tiro atingiu sua perna e ele dobrou-se em direção ao chão.
Wayne aproximou-se, puxou o cão da arma para trás e apontou a arma para a cabeça de Richard.
– Então, parece que a sua volta não foi o que esperava. Ninguém desafia Harrisson Wayne.
– Harrisson! – gritou Alejandra.
Quando ele se virou, encontrou Alejandra com uma arma em punho, a mesma que ela mantinha presa a sua perna, sob o vestido.
– Solte isso! Cuidarei de você com calma, depois de possuí-la pela última vez. Se me agradar, quem sabe eu mude de ideia!
Quando Wayne percebeu que Alejandra estava decidida, tentou apontar a arma em direção dela. Ouviu-se um único tiro, o saído da arma de Alejandra, acertando a testa de Wayne.
– Richard, você é bom. Eu sabia que não conseguiria tirar a vida de alguém com as próprias mãos. Eu também achava que não conseguiria. Mas eu não poderia deixar morrer a pessoa que mais amei nesta vida, depois de meus pais.
– Está vendo aquele índio ali. É meu amigo Maape. Naquela caixa que ele carrega está o meu presente para você. Espero que goste do vestido!
O silêncio da rua foi quebrado pelo ruído da população aliviada, que se aglomerava em torno dos corpos.
Colocado em pé por Maape, Richard tocou levemente o rosto de Alejandra, secando-lhe a lágrima. Depois, abraçou-a longamente.
O vento frio soprava intensamente, como que tentando limpar toda a sujeira acumulada nos anos de desmandos de Wayne.

Texto que fez parte da Antologia Cinco balas para um diabo, organizada pela Dríade Editora.

Adnelson Campos
20/11/2020

 

 

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