Jussara Lucena, escritora

Textos

A moral e a história

A floresta estava agitada. Já fazia tempo que um julgamento como este não acontecia. A dificuldade estava em encontrar algum animal com imparcialidade para formar o júri. O acusado do crime não havia poupado quase nenhum ser que compunha a fauna.
O réu que gostava de apresentar lições de moral, agora respondia por atacar a dignidade, a honra dos animais. Muitos acreditavam que ele não tivesse um rosto, que fosse só uma lenda, mas os habitantes da floresta conseguiram encontra-lo e captura-lo.
Com certeza, se ele fosse julgado pelos homens, ao invés de punido seria homenageado, pois os humanos se faziam de desentendidos, ignoravam suas faltas. O acusado usava os animais, denegria suas imagens para retratar a natureza humana. Assim pensavam os bichos.
A Juíza Coruja logo se apresentaria. Não havia animal mais qualificado. Também não se podia dizer que ela deixaria de ser imparcial, pois o denunciado nunca a mencionou em uma de suas fábulas ou pelo menos não se conhecia nenhuma história onde a ave de rapina fosse citada.
O Promotor Escorpião garantia ao público, que tomava conta da clareira em volta da grande pedra, que o sujeito seria condenado. Suas palavras eram espalhadas aos quatro ventos pelo bando de andorinhas que insistia em chilrear e dar rasantes por sobre os curiosos expectadores.
Como garantia de imparcialidade, o Júri era composto por sete animais exóticos, portanto, pouco explorados nas fábulas de Esopo.
Escoltado por dois tigres, e percorrendo um corredor formado por flamingos, surgia o réu, desnudo como todos os outros animais.
“Então, o homem pequenino e franzino é o Esopo? O tipo físico não revela traços de inteligência” – diziam duas pombas. Foram advertidas pela Águia que as acusou de preconceituosas.
Após o barrir do elefante e o silêncio da multidão, a coruja deu início a sessão.
– O senhor é o humano que chamam de Esopo?
– Sim Senhora! – respondeu o contador de histórias.
– O réu Esopo, é acusado de, em suas fábulas, fazer analogias entre a natureza humana e o modo de vida dos animais, denegrindo a imagem daqueles que habitam a floresta. Os animais acusam-no e exigem alguma forma de reparo. O senhor gostaria de um advogado de defesa?
– Serei meu próprio advogado, Meritíssima. Não creio que, pelo semblante dos aqui presentes, eu possa confiar em alguém. – respondeu Esopo.
“Pica ele logo”, sugeriu ao Escorpião um dos animais mais ao fundo.
– Silêncio! – Exigiu a coruja – Estamos aqui justamente para que não façam mal juízo da fauna e alguns dos senhores insistem em imitar a humanidade! Se assim o for, não precisamos de julgamento. Simplesmente aceitamos as histórias e as características atribuídas a nós por ele.
Não se ouviu um pio, nos instantes que se seguiram.
– Senhor Escorpião, deseja chamar a primeira testemunha? – perguntou a Coruja
– Sim. Convido a Dona Cigarra para que se apresente.
A cigarra voou rápido e num som estridente.
– Dona cigarra, o acusado, em suas mentirosas histórias, afirma que a senhora é preguiçosa. Que ao chegar da primavera e durante o verão só se põe a cantar e cantar e nada fazer. O que a senhora tem a declarar?
– Senhor, a minha vida é dura e difícil. Passo boa parte dela enterrada no solo, sugando a seiva das árvores e preparando a entrada para fungos e bactérias. Só depois de adulta, de longos anos, subo às arvores e realizo meu canto, para a reprodução, depois cumpro o meu papel no Ciclo da Vida, sou predada, servindo de alimento para algum outro animal. Só chio para que até que eu garanta a perpetuação de minha espécie eu não seja devorada por algum animal apressado.
– Não tenho nenhuma pergunta mais a fazer Senhora Coruja. Chamo agora o Senhor Lobo.
O lobo seguiu, com seu andar dissimulado. O cordeiro esboçou um sorriso quando o avistou, ao que o lobo lhe mostrou os dentes.
– Senhor Lobo, Esopo o retrata como um sujeito sem coração, impiedoso e eu arriscaria: deveras guloso, por não poupar qualquer ser que lhe cruze o caminho, como na sua fábula em que é personagem junto com o cordeiro. Concorda com ele?
– Eu sou um injustiçado! Veja o senhor que desde que este humano contou a tal fábula, participo de inúmeras histórias e sempre sou chamado de Lobo-mau. Isto prejudica a minha relação com os outros animais. Imagine o que seria do mundo sem o meu trabalho. Os carneiros e outros animais ruminantes já teriam devastado toda a floresta e nenhuma outra árvore cresceria depois de brotar. Não fui eu quem escolhi o topo da cadeia alimentar, esta missão me foi entregue. Por incrível que pareça, alguns dos poucos amigos que tenho, fora da minha espécie, são os homens.
– Agora, solicito a presença do Senhora Lebre – pediu o Escorpião.
A lebre chegou rápida e saltitante. Olhou, cheirou, deu a volta em Esopo e sentou-se sobre as patas traseiras.
– Dona Lebre. Diz a fábula contada por Esopo que a senhora gostava de zombar da lerdeza da tartaruga, dizendo-se orgulhosa de sua velocidade e agilidade. Consta que desafiou a Tartaruga e perdeu a corrida. Conte-nos como tem sido a sua vida desde então.
– Dona Coruja, animais do Júri. Talvez eu seja um dos animais mais rápidos na natureza. Com certeza, menos veloz que o Leopardo, nosso jurado, mas sou muito ágil. Não fosse isso, eu não duraria mais que alguns minutos neste mundo. Porém, quando foi relatada uma corrida que nunca existiu, sofri bullying até dos menores dos animais e passei a ser ameaçada por todo predador, pois deixaram de acreditar na minha única defesa que é correr. Perdi muitos companheiros de espécie por isso, mais do que a natureza exigiria.
– Vejam senhores do júri, estes são apenas alguns dos exemplos do quanto este homem, contador de histórias, prejudicou os animais diferentes dos da sua espécie. Eu poderia trazer até o plenário vários animais estereotipados pelo acusado: o Leão, convencido; o Veado, vaidoso; o Corvo, bobo; a Rã, inconformada com sua pequinês; o Asno, tolo e tantos outros animais escolhidos pelo réu para ilustrar suas preconceituosas histórias. Cada um deles teve a sua vida arrasada pelas mentiras reproduzidas em papel, passadas de boca em boca por gerações. Vou escolher apenas mais um animal, talvez o mais injustiçado de todos e personagem frequente da fraude que é o Senhor Esopo. Peço que compareça a nossa presença o Senhor Raposa.
A raposa levou alguns instantes para aparecer. Chegou lambendo os beiços que denunciavam a presença da gema de algum ovo que acabara de devorar.
– Raposa, você que é uma das personagens favoritas deste homem que hoje é julgado, o que tem a dizer sobre as inúmeras fábulas em que o senhor participa?
– Confesso que a certa esperteza a mim atribuída me enche de vaidade. Não sou humilde, assim, me acho um dos animais mais inteligentes por aqui. Além de astuta, também sou um pouco gulosa, como de tudo um pouco, mas só o que preciso para a minha sobrevivência. Alguém aqui conhece uma raposa gorda? Pois bem, este homem também me descreve como um enganador, que fiz de bobo o Corvo, aprontei para o Macaco enquanto rei, desdenhei das uvas, fiz passar fome a Cegonha, entreguei o Asno às garras do Leão, tentei enganar o Galo, quase queimei viva a Águia, abandonei o Bode no fundo do poço, entre outras coisas. Sinceramente, acredito que a malícia a mim atribuída é uma projeção das atitudes, do pensamento do próprio homem. Com tantas histórias contadas, sou perseguido e não me restou alternativa senão a de me espalhar por todo o globo, para a minha sobrevivência. Qual animal aqui não o faria?
– Meritíssima Coruja, nada mais tenho a declarar. As testemunhas falam por mim. Assim, peço ao Júri que condene o réu Esopo a prisão perpétua nesta floresta. Como medida adicional, solicito que o mesmo preste serviços aos animais, como compensação pelos danos causados.
– Agora concedo ao Senhor Esopo o exercício de seu direito de defesa! – Disse a Coruja.
– Em primeiro lugar, confesso que eu não sabia do transtorno que eu vinha causando aos animais. Se usei a imagem de cada um em minhas histórias foi por que sempre os observei e admirei. Na minha concepção, o animal chamado homem só tinha a aprender com os outros animais. Cada um tem dentro de nós coisas boas e não tão boas assim. Vejam que, quando eu usava animais em minhas fábulas era o homem que eu queria descrever, pois nós homens temos por natureza, mais defeitos que qualidades. Se usei animais para apontar nossa falta de virtudes, peço desculpas, pois na realidade quis evidenciar as fraquezas humanas e formas de melhor conviver com elas e quem sabe contribuir para um mundo melhor. Talvez eu tenha sido um pouco mais duro nas minhas palavras, se exagerei na caracterização das personagens isto se deve a condição de escravo que sou. Submeto-me ao julgo de sua Corte e à vontade dos jurados.
– Peço agora aos jurados que se reúnam e deliberem sobre o caso. Suspendo a sessão por uma hora e peço que todos os animais aqui presentes aproveitem para beberem água, somente. Fica proibida a alimentação num raio de quinhentos metros desta rocha. – Determinou a Coruja.
O burburinho tomou conta do local. Os carnívoros foram convidados à sombra das árvores e para aplacar a fome e a ansiedade, algumas aves em coro cantavam em tom de relaxamento. Um batalhão de tigres bem alimentados patrulhava as redondezas.
Na hora marcada, a sessão foi retomada. O Demônio da Tasmânia tomou a palavra.
– O Júri chegou a uma decisão: embora agora entendamos os motivos apresentados pelo Senhor Esopo, entendemos que não há como negar os prejuízos e transtornos que suas fábulas trouxeram aos animais. Assim o consideramos culpado!
Todos aplaudiram. Esopo permaneceu de cabeça baixa, pensando naqueles que deixará em casa.
A Coruja não deixou se abalar. Serena esperou que a multidão se acalmasse.
– Pede o Promotor Escorpião que eu condene o réu Esopo a prisão perpétua nesta floresta e que como medida adicional também preste serviços aos animais. Considerando que o Júri o considerou culpado, apesar de entender os motivos do réu, estabeleço a minha sentença: o homem chamado Esopo permanecerá nesta floresta, livre da sua condição de escravo, até que crie fábulas que envolvam todos os animais, de todas as espécies e que depois as conte para eles, os animais e, depois de libertado as espalhe aos seus semelhantes. Tudo isto como forma de celebrar a maravilha que é a natureza. Caso não o faça, será novamente encontrado e trazido de volta à floresta para aí sim, uma prisão perpétua.
Todos os presentes reafirmaram a sabedoria da Coruja. Até mesmo o Escorpião aceitou a decisão. Ele fez um pedido a Esopo: que a primeira história o envolvesse como uma das personagens. Esopo concordou, o colocaria numa aventura com o Sapo.
Esopo cumpriu a determinação da Coruja e criou fábulas para cada uma das espécies conhecidas. Pena que nesses mais de 2500 anos algumas delas foram esquecidas.
Moral da história: O que você fala de alguém, diz mais de você do que de quem você fala.

Texto vencedor do Concurso Valacir Cremonese - 2020 - Sobradinho - RS

Adnelson Campos
20/10/2021

 

 

site elaborado pela metamorfose agência digital - sites para escritores